UM AMOR BRASILEIRO

 
Sandra Marton






ARGUMENTO:

Ningum sabia quem era o pai do filho de Carin, j que ela tinha conseguido manter o segredo durante todo a gravidez... Mas no parto lhe escapou um nome: Raphael Alvares! O multimilionrio brasileiro acudiu imediatamente ao lado de Carin. Fez-o porque sua honra lhe obrigava a dar seu nome ao menino, ou acaso aquela nica noite de paixo o tinha feito desejar converter Carin em sua esposa?





Captulo 1

Cidade de Nova Iorque, Sbado, 4 de maio

Carin Brewster agarrou a mo de sua irm e se perguntou como diabos tinha conseguido sobreviver a humanidade, se cada mulher que tinha tido um filho tinha passado por semelhante agonia.
Gemeu quando outra contrao lhe sacudiu o corpo.
Isso disse Amanda Brewster Al Rashid. Empurra, Carin. Empurra!
Estou... empurrandoofegou.
Mame est a caminho. Chegarei de um momento a outro.
EstupendoCarin se mordeu o lbio. Poder me dizer que conhece a forma correta de... ohhhh, Deus!
Oh, queridaAmanda se aproximou. No achas que j  hora de que me diga quem ... ?
No!
No te entendo, Carin!  o pai de seu filho.
No... o... necessito.
Mas tem direito de saber o que acontece!
No... tem... nenhum... direito.
Carin fez uma careta de dor. Que direitos tinha um homem quando era quase um desconhecido? Nenhum. Algumas das decises que tinha tomado nos ltimos meses tinham sido difceis. Se ficava com o beb, se pedia ajuda a sua famlia. Mas decidir no contar a Rafe Alvares que a tinha deixado grvida tinha sido fcil. Ele no se importava com Carin; por que ia querer sab-lo? Por que um homem que tinha passado uma hora em sua cama e que nunca tinha tentado entrar em contato com ela quereria saber que ia ser pai?
A contrao passou. Caiu sobre o travesseiro.
Ele no  importante. O beb  meu. Sou tudo o que necessitar. S...gemeu e voltou a arquear-se... s eu.
 uma loucuraAmanda secou a testa de sua irm com uma toalha fria. Por favor, me diga seu nome. Deixa que eu o chame.  Frank?
No!apertou a mo de Amanda com mais fora. No  Frank. E no vou te contar nada mais. Mandy, disse que no o faria. Prometeu-o. Disse...
Senhora Al Rashid? Desculpe-me, por favor, mas tenho que falar com sua irm.
Carin girou a cabea. O suor tinha cado em seus olhos e tinha a viso imprecisa, mas pde ver que Amanda retrocedia para dar espao ao doutor Ronald.
Sentou-se junto a ela e tomou a mo.
Como ests passando, Carin?
Estou...titubeou. Estou bem.
Voc  durasorriu, no resta dvida. Mas acreditamos que j passou por isso o tempo suficiente.
Tente dizer ao meu bebconseguiu esboar um sorriso dbil.
 exatamente o que vou fazer. Tomamos a deciso de lev-la  sala de partos para trazer este beb ao mundo. O que lhe parece?
Lhe far a...outra contrao se apoderou de seu corpo. Gemeu e o doutor lhe apertou a mo.
No. Justamente o contrrio. Economizar energia aos dois.  o melhor que se pode fazer, o prometoficou de p e se apartou a um lado quando dois enfermeiros de branco se aproximaram da cama.
No se preocupe, senhoradisse um deles. Antes de que se d conta, ter esse beb nos braos.
No sou uma senhora, pensou Carin, mas a partir desse momento tudo correu em grande velocidade. Umas mos gentis a elevaram; Amanda avanou a seu lado enquanto empurravam a maca pelo corredor. Mais a frente duas portas se abriram e sua irm se agachou e lhe deu um beijo na testa mida.
Amo-te, irm.
Eu tambmento a empurraram pela porta a uma habitao branca, onde contemplou uma luz to brilhante como o sol.
Relaxe-se, senhorita Brewsterlhe pediu uma voz, e de repente sentiu uma sensao ardente no brao quando lhe introduziram a agulha do soro.
Aqui vamosdisse o doutor.
Passaram minutos, ou possivelmente uma hora; Carin no soube. Flutuava  deriva em muito nuvens enquanto esperava ouvir o som do pranto de seu beb, mas s ouviu a voz do doutor que ordenava uns nmeros e exigia cinco unidades de sangue.
Obrigou-se a abrir os olhos. Nesse momento a luz era cegadora. Uma enfermeira se inclinou sobre ela e Carin tratou de falar, porque de repente quis que algum soubesse o que tinha acontecido, que seu beb tinha pai, que no podia esquecer a ele nem a hora que tinha passado em seus braos...
E ento tudo se escureceu e caiu por um tnel profundo, e de repente foi uma calorosa noite de agosto em vez de uma clida amanh da primavera. Encontrava-se em Espada, no no hospital, e sua vida estava a ponto de mudar para sempre...
Era alto e atraente, e tinha estado observando-a desde o instante em que entrou na habitao.
Carin pensou que devia ser Raphael Alvares, mas ela o tinha apelidado de O Latin Lover quando Amanda fazia de tudo para convencer-la de que tinha que conhec-lo.
 um amigo de Nick, e veio para comprar uns cavalos de Jonastinha contado Amanda enquanto estava no quarto de hspedes observando Carin pentear o cabelo comprido e escuro. E, certamente, mame o convidou para passar o fim de semanasorriu.
Suspirou resignada, embora no fosse uma surpresa. Deveria ter imaginado que sua me no abandonaria a idia de casar s duas filhas solteiras que restavam. Samantha se achava fora de alcance em uma viagem pela Europa, o qual deixava Marta livre para concentrar todos seus esforos em Carin, apesar de que esta tinha jurado que nunca mais teria algo que ver com um homem, embora isso tampouco teria detido Marta.
 magnficoelogiou Amanda, e rico.  algo especial, embora no tanto como meu Nicholas.
Que sorte tensreps Carin com cortesia.
Chama-se Raphael Alvares. No te parece sexy?  brasileirotinha acrescentado Amanda.
Carin quase tinha esperado que sua irm a levasse de rastros para conhec-lo, mas ao que parecia, Amanda se tinha decidido por um enfoque mais sutil.
Em vez de indicar a Carin quem era Raphael Alvares, fazia o oposto.
Isso  o que tinha acreditado, porque o homem que devia ser o senhor do Brasil no deixava de olh-la. De vez enquando sorria, como nesse momento. Lhe devolveu o gesto, porque era o mais educado, mas no era seu tipo. De fato, nenhum homem era seu tipo. 
Levou a taa de vinho aos lbios e bebeu para no ter que seguir sorrindo quando era o ltimo que desejava fazer; deu as costas ao senhor.
O vinho desceu com suavidade, possivelmente porque era sua segunda ou terceira taa. Geralmente no bebia vinho tinto, mas o garom que havia visto s levava vinho na bandeja que portava.
Latin Lover voltava a olh-la. Quase podia sentir seus olhos na nuca.
Use o cabelo presotinha insistido Amanda, e ela tinha obedecido.
Mas nesse momento sentia a nuca nua, o qual era uma tolice, mas havia algo no modo em que Raphael Alvares a olhava que a fazia sentir incmoda.
Bebeu outro gole, esse mais longo. Queria esquecer que o homem com o qual tinha estado saindo nos ltimos seis meses tinha estado com uma de suas melhores amigas ao mesmo tempo que saa com ela. Era algo to tpico e triste que teria resultado bastanteinsignificante... exceto por um pequeno detalhe.
No s saa com ris, mas tambm se tinha comprometido com ela. Tinham fixado a data do casamento... e Carin ia ser uma das damas de honra.
No posso acreditar que no conhea seu noivolhe havia dito em uma ocasio a ris, e esta, to desconhecedora da verdade como Carin, tinha-lhe explicado que viajava muito.
Terminou o vinho no momento em que via outro garom com uma bandeja com taas, embora essas eram de coquetis, cheias com lquidos transparentes e cebolinhas ou azeitonas atravessadas por palitos de plstico.
Sorriu ao trocar a taa vazia por uma cheia com uma cebolinha, mas parecia pequena, passou a bolsa de noite sob o brao e tomou uma segunda taa, essa com uma azeitona.
O garom arqueou uma sobrancelha.
Obrigadodisse. Bebeu um gole da taa que continha a cebolinha. Ahmurmurou antes de beber um segundo gole.
Era verdade. Frank tinha viajado muito. O que nem ris nem ela sabiam era que quase todas as viagens eram entre os apartamentos das duas. Ao recordar o ingnua, quase estpida que tinha sido, esteve a ponto de rir.
Tudo se tinha desmoronado um ms atrs. Frank deve ter compreendido que no poderia continuar muito mais tempo com a farsa, no quando o ensaio para o jantar e os votos matrimoniais o olhavam quase  cara. De modo que uma noite tinha ligado, nervoso, para lhe dizer que tinha que v-la imediatamente, que tinha algo importante para lhe contar.
Tinha descido at loja da esquina para comprar uma garrafa de champanha e coloc-la na geladeira. Encantada, pensou que ia se declarar.
Mas lhe havia dito que estava preso em um pesadelo. Tinha-lhe revelado que havia se comprometido com outra mulher. E enquanto ela o olhava horrorizada, tratando de assimilar a notcia, tinha-lhe contado quem era essa mulher.
Ests brincandohavia dito Carin quando por fim pde articular uma frase coerente.
Frank se tinha encolhido de ombros e esboado um sorriso travesso e tmido, e nesse momento foi quando ela passou da surpresa aos gritos. Tinha-lhe atirado coisas, um vaso, o balde para o champanha, e ele tinha corrido at porta.
Respirou fundo, levou a taa aos lbios e bebeu meio Martini.
Tinha sobrevivido, inclusive tinha conseguido situar tudo em perspectiva. Frank no era uma grande perda; no queria a um homem como esse, incapaz de ser fiel. No tinha sentido que a autocompaixo a dominasse. Ao inferno com Frank. ris podia ficar com ele.
Tudo ia bem, ou quase bem, at que recebeu um convite para o casamento junto com uma nota de ris que lhe pedia, com muita educao, se lhe importaria de passar o vestido de dama de honra  garota que ia ocupar seu lugar.
Carin tinha rasgado o convite e a nota em pedacinhos, tinha-os metido no envelope e endereado ao casal feliz. Depois, porque era hora de reconhecer que nunca sobreviveria sozinha a fim de semana do casamento, tinha ligado para Marta para lhe informar que iria comparecer  festa.
Com Frank?tinha perguntado sua me, Carin lhe respondeu que no.
Se nesse momento sabia mais, se Amanda tinha contado tudo, no o tinha revelado, salvo para abraar com fora a Carin quando esta chegou e lhe sussurrar.
De todos os modos, nunca gostei dele.
Carin suspirou. Comeava a descobrir que Frank no tinha cado bem a ningum. Nem a sua secretria, que tinha querido mat-lo quase tanto como Carin. Nem a Amanda, nem a Nicholas, nem a ningum com dois dedos de testa... salvo a ela. Ela tinha sido to tola... 
Canaps, senhorita?
Elevou a vista e sorriu ao garom com luvas brancas, deixou o Martini vazio em uma mesa e tomou um diminuto canap da bandeja.
Do que ?perguntou.
Acredito que de lagosta, senhorita.
Assim era, e decadentemente delicioso. O nico que precisava era outro gole do que fosse que havia na taa com a cebolinha para que fosse perfeito... exceto que estava vazia.
Perguntou-se como tinha acontecido. Bom, era um problema que tinha fcil soluo. Depositou a taa vazia junto  outra e caminhou pela sala lotada em busca de uma taa.
Senhorita?
A voz era masculina, com um marcado acento e soava justo atrs dela. Respirou fundo, plantou um sorriso nos lbios e se voltou. Tal como tinha esperado, era a Bomba Brasileira.
De perto, no era to atraente. Seu queixo era um pouco fraco, o nariz muito longo. De fato, parecia-se muito com Frank.
Senhoritarepetiu, e tomou a mo. Inclinou-se para lhe plantar um beijo mido na pele.
Carin a retirou e lutou contra o desejo quase entristecedor de limpar-la no vestido.
Oldisse com toda a amabilidade que pde armazenar.
Olele sorriu com tanto entusiasmo que Carin pde ver uma obturao no molar. Pergunto quem  a formosa dama do cabelo preto e os olhos verdes e me responde que s Carin Brewster, sim?
Simrespondeu, perguntando-se se um acento portugus soava dessa maneira. Quero dizer, obrigado pelo elogio, senhor.
Senhorrepetiu ele, e riu.  divertido que me chame dessa maneira, Carin Brewster.
Bom, sei que minha pronncia no  muito boa, mas...
A conversa insegura teve pouco sentido. O Latin Lover falava pouco ingls e ela nada de portugus. Alm disso, realmente no queria falar com ele. No queria falar com ningum, em particular com um homem que recordava levemente a Frank.
Esse rato mentiroso. Embora todos os homens eram mentirosos. Tinha-o aprendido muito cedo. Seu pai  tinha mentido a sua me. Tambm a ela, cada vez que subia nos colo dele para lhe suplicar que no voltasse a ir.
Esta  a ltima vez, anjolhe respondia, mas nunca era a verdade.
O que acontecia as mulheres Brewster? No tinham aprendido nada? Seu pai tinha mentido. Pelas histrias que ouviu, Jonas Baron fazia da mentira uma forma de arte. Sim, podia haver excees. Tinha esperana com seus meio-irmos, e com o novo marido de Amanda, mas como regra geral...
... uma brincadeira graciosa, sim?
Carin assentiu e riu de forma mecnica. Fosse qual fosse a brincadeira que tinha contado o senhor, no podia ser nem metade de graciosa a que ela tinha pensado.
Pergunta: Como se sabe que um homem mente?
Resposta: Seus lbios se movem.
Frank a tinha alimentado com mentiras e dito que a amava, e nesse momento se achava em Nova Iorque casando-se com outra mulher.
J  suficiente, pensou Carin, e em meio da seguinte brincadeira do senhor, tomou a mo, a estreitou com veemncia e lhe disse que tinha sido um prazer. Depois que a soltou, tentou que a expresso de cachorrinho ferido que ps no a afetasse, saiu da sala, passou pelo vestbulo enorme e foi  biblioteca, onde um quarteto de cordas se movia na direo oposta que o violinista de msica country que havia na sala de jantar.
Um garom de jaqueta branca abria passagem entre a multido, com uma bandeja com taas equilibrada sobre a mo enluvada.
Ehchamou a suas costas.
Era uma maneira pouco elegante de atrair a ateno do homem; sabia que sua me teria arqueado as sobrancelhas e a teria repreendido, mas funcionou. O garom girou para ela e Carin tomou uma taa da bandeja. Era curta e gorda, cheia at a metade com um lquido ambarino e partes de fruta. A aproximou do nariz, a cheirou e em seguida bebeu um pouco.
Arghhhdisse, mas de todos os modos bebeu outro gole. Amanda chegou flutuando nos braos de seu marido.
Cuidadoentoou com suavidade, ou te subir  cabea.
Obrigado pelo conselho fraternaldisse enquanto sua irm se afastava.
Mas tinha razo. Se no andasse com cuidado, lhe subiria  cabea. A nica das trs irms Brewster que agentava o lcool era Sam, e Sam no estava presente. Encontrava-se na Irlanda, ou na Frana ou na Inglaterra. Em qualquer lugar que fosse, o mais provvel era que estivesse divertindo-se.
Bom, iria com cuidado. No queria embebedar-se. Depois de tudo, era um acontecimento social. Para ela no, mas sim para todos outros. Em particular para Caitlin e seu marido, Tyler Kincaid. No queria lhes estragar sua festa. A festa de sua irm. Bom, no exatamente sua irm. Catie era sua meio-irm... No?
Bebeu o resto do lquido mbar e deixou a taa vazia sobre uma mesa.
A estrutura familiar dos Baron, dos Brewster, dos Kincaid e nesse momento dos Al Rashid era complicada. Soluou, sorriu e se dirigiu  biblioteca sobre ps que pareciam envoltos em cera.
Ser melhor que tomes cuidado, pequenasussurrou.
Se no era capaz de saber o parentesco que tinham com ela os membros da famlia, possivelmente j era hora de reduzir as taas... embora ainda no. Ao inferno com tudo. Tinha sede e era adulta. Podia beber o que quisesse.
Soluou com sonoridade. Riu entre dentes, levou-se uma mo  boca e disse: Sinto muito, a ningum em concreto. Algum riu. Seguro que no dela. As pessoas nas festas riam, isso era tudo. A maioria das pessoas assistiam s festas para rir. Para passar bem. Nem todo mundo ia tratar de esquecer quo tolas  tinham feito parecer, e sentir.
O que necessitava nesse momento era um pouco de ar fresco. Uma brisa fria sobre suas bochechas acesas. Encaminhou-se para as portas que conduziam ao exterior, abriu-as, saiu  plataforma mdia da cascata de Espada e respirou o suave ar noturno.
Quanto ao sexo... como podia melhorar o matrimnio algo que para comear no tinha sido to magnfico? O sexo era sexo, isso era tudo, no o que segundo algumas pessoas levava ao cu.
No obstante, passados uns meses tinha comeado a pensar que casar-se no estaria to mal. Teria companhia ao final do longo dia passado em seu escritrio da Wall Street. Algum com quem compartilhar o jornal de domingo.
Resultou que no tinha sido ela a nica em mudar de idia. Tambm o tinha feito Frank, inflamado inimigo do matrimnio. Era engraado. Tinha decidido que queria casar-se, mas no com ela.
Tragou saliva.
Devia deixar de pensar nisso. Nele. Em tudo o que lhe faltava e que ele tinha encontrado na ris.
O que precisava era comer algo. Fazia horas que no provava um bocado, salvo pelo canap de lagosta. E havia um buf maravilhoso. Caranguejos, ostras, salada de lagosta, costelas, salmo e codorna.
Perguntou-se o que haveria no menu do casamento de Frank. Fez uma careta. Sem dvida estmago de vbora, para satisfazer ao noivo.
Sentiu um formigamento na nuca. O brasileiro a tinha seguido. No era preciso olhar; quem outra pesoa podia ser? Nem sequer pensava lhe dar a satisfao de voltar-se. Que o Senhor Maravilhoso provasse seus encantos com alguma mulher interessada nesses jogos. 
Frank tinha estado por cima dos jogos. Ao menos era isso o que ela tinha pensado e o que no princpio gostou dele.
Conheceram-se em uma festa beneficiente para arrecadar recursos. Ao menos meia dzia de homens se tinham aproximado naquela noite, empregando as frases mais velhas do mundo, desde Perdoa, mas, no nos conhecemos? at Tenho que te dizer que s a mulher mais formosa da sala.
Frank se tinha apresentado com a mo estendida e um carto de visitas e lhe havia dito que tinha ouvido  um de seus clientes falar dela.
Descreveu-te como uma das melhores conselheiras de investimentos de Nova Iorque.
No umatinha sorrido Carin. Sou a melhor.
Esse tinha sido o princpio de sua relao. Viram-se freqentemente, mas cada um tinha sua vida. Assim era como ambos o tinham querido. Existncias separadas, sem dependncia. Sem troca de chaves nem escovas de dentes no apartamento do outro.
Perguntou-se se teria deixado uma no banheiro de ris.
Diabosmurmurou, plantando as mos no corrimo de teca.
Voltava a ter sede. Sem dvida devia haver um bar a fora. Jonas no havia dito algo de um churrasco no terrao? Se havia um churrasco, tinha que haver um bar.
Uma taa de sauvignon branco, por favor  disse ao garom quando o encontrou.
De fato, a lngua lhe travou como tinha acontecido a seus ps. Esteve a ponto de rir entre dentes, mas o garom a olhou de forma peculiar, assim que o observou sria, com as sobrancelhas arqueadas e olhos firmes.
E bem?disse, e esperou.
Ao fim lhe serviu o vinho e lhe entregou a taa, mas, por algum motivo, a mo de Carin tremia. O lquido dourado se verteu por um lado. Ela franziu o cenho, lambeu-se o vinho da mo, bebeu o que restava e estendeu a taa.
Outropediu.
Sinto muito, senhorao garom moveu a cabea.
Se ficou sem branco, tinto, entosorriu para deixar claro que no se importava. No lhe devolveu o sorriso.
Sinto-o de verdade, senhora, mas acredito que j bebeu o suficiente.
Carin entrecerrou os olhos. Adiantou o torso, e esse simples movimento a enjoou. Estavam no Texas e fazia calor.
O que quer dizer com isso de que bebi o suficiente? Isto  um balco, verdade? Voc  o garom. Est aqui para servir taas s pessoas, no para se fazer de polcial do lcool.
Ser um prazer lhe servir um caf.
Falou em voz baixa, mas todo mundo a seu redor tinha ficado em silncio e as palavras pareceram reverberar no ar noturno. Carin se acalorou.
Est dizendo que acredita que estou bbada?
No, senhora. Mas...
Ento, me sirva uma taa.
Senhorao garom se inclinou para ela, o que lhe parece esse caf?
Sabe quem sou?Carin se ouviu dizer. Fez uma careta mental, mas sua boca parecia ter cobrado vida prpria. Sabe ... ?
Sabe. E se no fechar essa bonita boca, todo mundo terminar por sab-lo.
A voz surgiu justo por trs de seu ombro. Era masculina, rouca e com um leve acento. O Latin Lover, pensou Carin, voltando-se.
Apesar do acento, no era ele. Tratava-se de algum a quem no tinha visto com antecedncia. Bbada   ou no, e sabia que o estava um pouco, no o teria esquecido.
Era alto e de ombros largos, muito maior que o tipo com quem Amanda tinha tratado de emparelh-la. Tinha o cabelo da cor da meia-noite, os olhos da cor das nuvens tempestuosas e o rosto no era bonito graas a uma mandbula quadrada e a uma boca que parecia poder ser to sensual como cruel.
Carin conteve o flego. Sbria, jamais teria reconhecido a verdade, nem sequer ante si mesmo. Bbada, possivelmente.
Era do material de que estavam compostos os sonhos. Era magnfico, o eptome da masculinidade...
E o que ela fazia ou dizia no era assunto dele.
Perdoe?disse, erguendo-se. Um grande erro. J que ao respirar fundo foi, como se a cabea no pertencesse ao resto de seu corpo.
Eu disse..
Ouvi o que dissecravou um dedo no centro dos babados de sua camisa, no peito duro que havia sob o suave algodo. Deixe que lhe diga uma coisa. No necessito de seu conselho. E no necessito que me censure.
Ele lanou o tipo de olhar que a teria intimidado se no tivesse estado muito alm da fase de acovardamento.
Ests bbada, Senhora.
No sou uma Senhora. No estou casada.
Em meu pas, todas as mulheres, solteiras ou casadas, so chamadas de Senhorafechou a mo no cotovelo dela. Carin o olhou com olhos cintilantes e tratou de soltar-se, mas ele a apertou ainda mais. E ns no gostamos de as ver brias nem dando espetculos.
Ela soube que falava em voz baixa de forma deliberada, para que nenhum do espectadores curiosos que observavam a pequena cena pudesse ouvir o que dizia, e se disse que devia imit-lo e afastar-se do bar, mas nessa noite no pensava aceitar ordens de ningum, e menos de um homem.
No me interessa seu pas, nem o que fazem ou gostam que faam suas mulheres. Me solte.
Senhora, me escute...
Me solterepetiu, e quando ele no o fez, entrecerrou os olhos, elevou o p e o pisou com fora.
Deve ter lhe dodo. Carin usava umas sandlias pretas de seda com salto agulha. No curso de defesa pessoal ao qual tinha assistido uma vez, o instrutor lhes tinha ensinado que pusessem todo seu peso e energia nesse piso.
O desconhecido no moveu nenhuma pestana. Em troca, tomou Carin em seus braos e entre a risada geral e alguns aplausos, atravessou a terrao e desceu os degraus, afastando-se da casa iluminada em direo  escurido do jardim.
Ca... Canalha!gritou enquanto lhe golpeava as costas. Quem demnios acredita que s?
Raphael Eduardo Alvaresreps com frieza. E voc, Senhora Brewster,  a viva imagem de uma malcriada...
Rafe?, os olhos de Carin se abriram. Olhou cegamente a luz. Rafe, onde ests?
Perdemo-la, disse uma voz com tom urgente, e ento reinou somente o silncio.



Captulo 2

Rio do Ouro, Brasil, Sbado, 4 de maio

Raphael Eduardo Alvares se ergueu de repente na cama; o corao martelava e tinha o corpo nu coberto de suor. Tinha estado sonhando, mas j no recordava com o que.
A resposta no demorou para chegar.
Tinha estado sonhando outra vez com a mulher e a nica vez que tinha estado com ela.
Afastou o lenol e se sentou.
Perguntou-se por que. Ela e a noite no eram mais que uma lembrana de quase nove meses atrs. No obstante, o sonho tinha sido muito real, e no o mesmo, como sempre. Nesse, ela tinha resultado ferida. Em um acidente, talvez. E o chamava...
No  que importasse. A mulher no significava nada para ele. Alm disso, no acreditava nos sonhos. O que importava era o que um homem podia ver e tocar. Os sonhos eram uma necessidade, e s conduziam  dor.
Ficou de p, estirou-se e foi  janela. Comeava a amanhecer; a savana interminvel se estendia sob o resplendor rosado plido at as ladeiras das colinas escuras e distantes.
Era bom que tivesse se levado cedo. Essa manh tinha que voar a So Paulo para uma reunio de negcios, e depois tinha marcado para almoar com a Claudia. Havia dito a seu piloto que tivesse o avio preparado para as oito horas.
Depois de tomar banho, barbear-se e vestir-se, o sonho estava esquecido. Desceu, saudou sua governanta, aceitou a taa de caf puro e doce que lhe ofereceu e se dirigiu a seu escritrio.
Vinte minutos mais tarde, apagou o computador. No era capaz de concentrar-se. Pensava outra vez no sonho. E na mulher. Ser que alguma vez poderia tirar-la da cabea?
Desprendeu o telefone.
Bem podia adiantar a partida... mas assim que teve ao piloto na linha, cancelou o vo. Depois telefonou a So Paulo, deixou mensagens de pesar na secretria eletrnica do homem com o qual pretendia reunir-se e depois na de Claudia. Nunca se levantava at o final da manh; ainda o recordava. No havia motivo para acreditar que ela tinha mudado, inclusive nos cinco anos desde que Rafe tinha posto fim a seu compromisso.
Sabia que seu comportamento era atpico. No tinha construdo seu imprio de cavalos, gado e bancos fazendo as coisas de forma precipitada, mas, que lgica havia em tratar de concentrar-se nos negcios quando seus pensamentos no estavam no Brasil, a no ser emaranhados em um sonho que carecia de sentido?
Embora Carin estivesse metida em problemas, ele era o ltimo homem na terra a quem quereria ver.
Trocou de roupa; colocou uma camiseta preta, uns jeans e as velhas botas de montar que tinha desde sua chegada a Rio do Ouro mais de uma dcada atrs. Nos estbulos tirou seu cavalo da cavalaria e o selou ele mesmo. Montou-o e empreendeu o galope.
Fazia meses que tinha banido de seus pensamentos  mulher Brewster. Ela tinha deixado claro que o que tinha acontecido no significava nada. Tinha querido somente uma horacom ele... uma hora, em que tinha ocupado o lugar de outro homem.
No  que ele tivesse querido mais. S tinha ido procurar-la porque assim o exigia a cortesia. Tinha sido um convidado a uma festa a qual no tinha tido desejo real de comparecer, e uma das filhas de sua anfitri, a esposa de um amigo, o mesmo que o tinha apresentado a Jonas Baron e lhe tinha dado acesso aos estbulos Baron, havia dito que esperava que conhecesse sua irm.
O resto dos Baron tinha insinuado o mesmo.
Vai haver muitas mulheres atraentes na festahavia dito Jonas com um sorriso. Me parece um bom fim de semana, Alvares. Passa o dia inspecionando esse semental que te interessa e a noite comprovando a algumas das melhores guas do Texas.
Marta Baron tinha sorrido quando Jonas lhe entregou um xerez.
Meu marido tem razo. Haver algumas jovens encantadoras na festa. Estou segura de que todas querero te conhecer.
Que agradveltinha mentido por educao. No sabia por que as mulheres de determinada idade pareciam considerar a todos os vares solteiros como um desafio. Mas no tinha planejado ficar  festa...
Oh, por favor, fique !Amanda Al Rashid tomou o brao de seu marido. De verdade, Rafe, ser divertido. Minha irm, Carin, vir de Nova Iorque. Ele te mencionou isso?
Em sua cabea soaram uns sinos de advertncia. Conhecia esse sorriso e esse tom casual de voz.
Notinha respondido ainda com mais cortesia, no o mencionou.
Ah, pois vir. E estou convencida de que vocs se daro muito bem.
No me resta nenhuma dvidatinha concordado ele.
Essa tinha sido a mentira nmero dois. Mas j conhecia esse caminho. As mes, as tias, as esposas de seus conhecidos de negcios... havia momentos nos quais podia acreditar que todas as mulheres do planeta tinham uma filha, irm ou sobrinha que acreditavam que lhe ia encantar.
Depois de tudo, tinha trinta e quatro anos e estava solteiro; possua dinheiro e propriedades e, segundo as coisas que as mulheres lhe diziam na cama, supunha que tinha o que se conhecia como atrativo. Quo nico no tinha era uma esposa e no sabia para que podia querer uma.
No obstante, no tinha querido insultar a seus anfitries, a seu amigo e  mulher de seu amigo, tudo ao mesmo tempo. De modo que tinha ficado para a festa e tinha sado a procurar a essa mulher. Uma saudao educada, seguido de uma desculpa educada por ter que retirar-se cedo, tinha parecido algo bastante singelo.
Exceto que no tinha funcionado dessa maneira.
Atirou das rdeas de seu cavalo e cravou a vista na distncia. Em vez de encontrar  mulher, tinha encontrado a uma gata montesa furiosa e selvagem.
E a tinha levado a cama.
Tinha estado com muitas mulheres na vida. Alguns diriam que mais das que lhe correspondia, mas jamais com uma como ela.
O modo em que tinha entrado em seus braos... como se ele fosse o nico homem ao qual tinha desejado. A veemncia dos beijos. O modo em que o corpo tinha vibrado sob suas mos e sua boca. Deus, tinha-o excitado. O clmax alcanado por ela o tinha feito sentir to onipotente como um deus; o seu, segundos mais tarde, tinha-o sacudido at as profundidades de sua alma. Mas quando tinha tentado aproxim-la, ela se tinha liberado de seu abrao e lhe tinha pedido que partisse, de um modo que tinha deixado claro que tinha servido a seu propsito e j no era mais necessrio.
Ela tinha entrado no banheiro. Ele tinha ouvido o clique da fechadura e durante um momento louco lhe tinha passado pela cabea colocar a porta abaixo, levar-lhe outra vez  cama e lhe mostrar que no podia utilizar a um homem para em seguida descart-lo como se fosse um lixo...
Apertou os lbios.
O menino que tinha sido uma vez teria feito isso. O homem no qual havia se convertido no o faria. Vestiu-se na escurido para ir a sua habitao na casa silenciosa e adormecida...
O cavalo bufou e moveu as patas. Rafe lhe deu umas palmadinhas no pescoo arqueado. Carin Brewster no s era uma lembrana longnqua, mas sim era uma lembrana desagradvel.
Ento, por que no posso tirar-la da cabea?
Lhe nublou a viso ao recordar aquela noite, quando algum riu e mostrou a Carin no momento em que ele tinha perguntado onde estava; como tinha permanecido no terrao de uma manso texana, observando-a fazer ridculo enquanto as pessoas se mofavam, perguntando-se se devia ser um cavalheiro e fazer algo a respeito ou deixar que a cena se desenrolasse...
Diabos. No era um cavalheiro e nunca o seria.
Mas Jonas Baron era seu anfitrio e Nick Al Rashid seu amigo, o que convertia  esposa de Nick tambm em seu amiga, e a mulher que fazia ridculo era a irm de Amanda Al Rashid...
Sem pensar em outra coisa, dirigiu-se para Carin, elevou-a nos braos e desceu com ela os degraus que conduziam ao jardim. As pessoas os viram, riram e os aclamaram, mas ningum tentou det-lo... ningum salvo a gata selvagem que tinha nos braos, que chutava, amaldioava e o golpeava com os punhos.
Pareceu-lhe impossvel que a esposa de Nick e sua me pudessem imaginar que estaria interessado na mulher que o amaldioava enquanto a levava ao interior do jardim.
Carin Brewster era a anttese do tipo de mulher que algum dia procuraria para casar-se, porque supunha que algum dia ia se casar. Um homem necessitava de herdeiros para no perder tudo o que tinha lutado para construir, mas a mulher que escolheria para ser sua esposa seria dcil e fiel. Quereria entregar-se a ele e aos filhos que lhe daria.
Ests louco?gritou Carin enquanto a afastava da casa. Me desa!
No era de estranhar que a famlia dessa mulher tivesse problemas para cas-la. Era formosa, isso sim. Mas tambm tinha uma lngua afiada, mau humor e era egosta. Rafe estava impaciente por desfazer-se dela.
Idiota!esmurrou os punhos sobre o peito dele. Imbecil! Tem idia de quem eu sou?
Simrespondeu Rafe com frieza. Sei exatamente quem .
No pode levantar no ar a uma mulher e levar-la dessa maneira!
Ahindicou com calma, jogando a cabea para trs bem a tempo de evitar um soco furioso, se me tivesse mencionado isso antes, Senhora, no o teria feito.
Voc... voc... voc...
No encontrava um insulto que lhe fizesse justia, e ele riu. Isso ajudou a p-la mais furiosa. Perguntou-se o que ia fazer com Carin Brewster.
Espere, e ver! Espere at que chegue  casa. Farei que o expulsem desta propriedade to rpido que lhe dar voltas a cabea.
Estou... como ? Estou tremendo.
J ver como vai tremer  voltou a lhe golpear o peito. Pela ltima vez, me desa!
Se o fizer, ir para sua habitao, pedir a governanta que lhe leve uma cafeteira cheia de caf preto e beber at a ltima gota?
Por que deveria faz-lo?
Porque ests bbada.
Absolutamente.
Ests bbadarepetiu com firmeza, e se estava pondo em ridculo.
Se tivesse razo... se tivesse razo, seria meu assunto, no seu. No tinha direito de interferir.
Interferi por sua famlia, e pelo pobre homem ao qual ameaava.
Isso  pattico. De verdade espera que eu acredite nisso?
Na realidade, fiz-o pela sua irm, que a tem em muito alta considerao.
No sabe nada do que pensa minha irm.
Justamente o contrrio, Senhora. Sei que tem falsas iluses sobre voc, ou no teria acreditado que me resultaria atraente.
Sim, bom, tambm tem as mesmas iluses sobre voc... neandertal sul-americano. E se de verdade est pensando em minha famlia, comece a concentrar-se em como vai reagir quando lhe contar o que tem feito.
Nicholas e Jonas sem dvida concordariam que uma mordaa seria uma idia excelentetrocou o peso dela nos braos. Era esbelta e de ossos finos, mas se retorcia como uma serpente. Pensou em passar-la ao ombro, mas rechaou a idia ao recordar todo o lcool que tinha bebido. Quanto a seus meio-irmos...observou-a com expresso severo. Os conheci, e pelo que sei de Tyler, Gage, Travis e Slade, me...
Deteve-se. Justo diante tinha um vazio. Junto a um lago havia uns bancos de madeira.
O que?exigiu saber o vulto quente, doce e mal-humorado que levava nos braos.
Aplaudiriam-me pelo que estou a ponto de fazerse aproximou do lago e a jogou na gua.
Ela aterrissou sobre o traseiro, com as pernas abertas e colocada at os quadris na gua. Reinou um silncio sepulcral. At a gua que caa de uma ninfa de pedra ficou silenciosa. Carin abriu a boca e seus lbios formaram um Oh atordoado...
E ento soltou um grito que gelou o sangue.
Com frieza, Rafe pensou que era uma pena danificar um vestido to bonito. O pouco que havia dele. Tinha um decote o suficientemente baixo para mostrar as curvas dos seios dela e era o bastante curto para revelar as longas pernas. Molhada, a seda se colava adoravelmente ao corpo; viu que os mamilos se erguiam pelo sbito frio ao que tinham sido submetidos.
No restava dvida de que era formosa, mas isso era tudo. No era nada que um homem em seus juzo poderia querer...
Embora possivelmente fosse interessante para uma noite.
Com uma rapidez assobrosa, Rafe sentiu que seu corpo respondia. Seria um desafio atravessar esse temperamento aceso e procurar um modo de converter em paixo a fria que havia nos olhos escuros. Sabia que podia faz-lo. Podia dom-la na cama, tal como a tinha domado ali.
Imaginou que lhe tirava a renda preta que via por debaixo do vestido e que deixava que enroscasse as pernas a seu redor, enquanto lhe emoldurava o rosto bonito e provava essa boca carnuda e de aspecto suave.
Deus. Estava louco? Carin Brewster era formosa, mas a manso Baron, tal como tinha prometido Jonas, estava cheia de mulheres formosas de temperamento doce, fala suave e comportamento sbrio. Embora suspeitava que a mescla de fria, adrenalina e gua fria j tinha posto fim  bruma alcolica de Carin.
Olh-la o fortaleceu. Os gritos se converteram em gemidos; enquanto tentava incorporar-se, levou-se as mos s tmporas. Apesar de si mesmo, no pde evitar uma pontada de compaixo. Titubeou, em seguida se aproximou e estendeu o brao.
Aquidisse, tome minha moela parecia uma serpente que mostrava as presas. Sups que no podia culp-la - Me escutaste, Senhora? Tome minha mo e a ajudarei a levantar-se.
Preferiria passar toda a noite aqui.
Segue teimando em comportar-se como uma garota malcriada? Deixe que eu a ajude.
Sou perfeitamente capaz de ajudar a mim mesma.
Tentou demonstr-lo, mas escorregou no mrmore molhado, gesticulou no ar e Rafe terminou outra vez com ela nos braos.
No faa issoespetou Carin. Simplesmente me deixe... no choconcluiu ele. Certamente,  o que trato de fazera desceu, tirou-se a jaqueta e a passou pelos ombros. Carin tentou desprender-se dela, mas ele levantou o cabelo por debaixo da gola, juntou-lhe as lapelas e a manteve fechada.
No necessito de sua jaqueta. No necessito nada de voc.
Ests com frio.
Estou molhadaespetou. E se voc se esforar muito, pode que ser que seja capaz de adivinhar a causa.
Estavas bbada.
E?
E agora j no o est.
Maravilhoso. Trata-se de algum mtodo especial brasileiro empregado para curar as ressacas? No ouviu falar do caf puro?
O sugeri mas voc o declinou.
Por isso decidiu to... tomar as coisas em suas pr...prprias mos.
Seus dentes esto batendofranziu o cenho.
O mes... mesmo lhe aconteceria se a... algum decidisse atir-lo em uma fonte.
Vamosestendeu a mo, mas ela se retirou.
No vou a nenhum lugar com vocelevou o queixo e o olhou com olhos cintilantes.
Rafe pensou em discutir, o pensou melhor, suspirou e voltou a elev-la nos braos.
Eh!elevou a voz quando ele retornou pelos jardins. Quer morrer? Hei-lhe dito que minha famlia...
A visitar no hospitalcortou com voz lgubre, se no se comportar, tira essa roupa molhada e tome uma ducha quente.
Que esteja empapada a ... at a medula no  assunto... seu, a no ser sua maldita culpa.
Tambm ests sbria, ou no pensou nisso?
No posso estar sbria. Quero dizer, considerando que estivesse bbada, o que no  assim, como posso estar sbria cinco minutos depois?
gua fria. H ocasies, em que se  afortunado, em que surte esse efeito. Passe os braos ao redor de meu pescoo, Senhora Brewster, por favor.
No farei nada parecido.
Rafe suspirou, pensou outra vez em jogar-la sobre o ombro e, novamente, abandonou a idia.
H uma entrada  casa que nos permita evitar aos outros convidados? A menos,  obvio, que voc prefira uma entrada dramtica. Poderia ser bastante efetiva, se tivermos em conta a sada que realizou.
Essa  sua histria, Senhor, mas foi voc quem provocou a cena.
No acredito que o garom esteja de acordo.
Que gar ... ?comeou, mas calou imediatamente. Oh. Esse garompigarrou. Agora... agora o recordo.
De verdade?
Sim. Ao menos, recordo parte de... me diga a verdade. Fui to... fui ... ?voltou a pigarrear. Fiz papel de idiota, no  certo?
Rafe titubeou. Assim era, mas no tinha nenhum sentido dizer-lhe.
Mostrou-se um pouco veemente.
Em outras palavrassussurrou ela, a resposta  sim.
As pessoas esquecemapontou ele.
No  provvel que esqueam a uma mulher a que tm que levar-se como...
O que recordarocomentou, tendo piedade,  que um homem ficou to cativado por sua beleza que no suportou compartilh-la com outros.
 muito generoso. Se no conhecesse a verdade, quase poderia lhe acreditar.
Se algum me perguntar isso,  a histria que contarei amanh.
Isso  mais que generoso, Senhor,  galante. E, sim, h uma porta traseira. Est atrs desses arbustos - a porta se abriu ao contato. Conduzia a uma despensa enorme, que se achava vazia. J pode me descer.
Rafe se recordou que era culpa sua que estivesse molhada e gelada.
Escoltarei-a at sua habitao, Senhora. Me diga onde est.
Ela o indicou e ele se dirigiu rapidamente at as escadas de servio e ao primeiro andar.
Essa portaassinalou Carin, a da esquerda - estendeu a mo e a abriu; Rafe a fechou com o ombro. J pode me descer.
Certamenteassentiu... mas no a baixou. Permaneceu na escurido, sustentando-a em seus braos, perguntando-se como podia cheirar a jasmim e a rosas depois de ter sido jogada em um lago.
SenhorCarin respirou fundo e soltou o ar. Acredito... acredito que lhe devo uma desculpa.
Aceitosorriu. Mas s se nos tratarmos por voc e me chamar de Rafe.
Carin riu.
Supunha-se que devia dizer que no era necessria nenhuma desculpa.
Mas no  assim. Hoje me chamaste de vrios nomes e, a verdade, unicamente merecia alguns
Ela voltou a rir, reclinou-se na curva de seu brao e o olhou no rosto.
De acordo. Sinto muito. De verdade.
Deus, era adorvel. E encantadora uma vez sbria. Mas precisava despir-se, secar-se e se esquentar. Pensou que podia ajud-la; e sentiu que o corpo voltava a acelerar-se. Com cuidado, deixou-a no cho.
Deve te tirar essa roupa molhada, Carin, e tomar uma ducha quente.
Seivacilou. Rafe? Eu... eu no quereria que pensasse... Quero dizer, foste amvel ao ir me resgatar, mas...apartou-se uma mecha de cabelo do rosto. Quero que saiba que geralmente no bebo dessa maneira.
Ele assentiu. J tinha chegado a essa concluso.
Estou seguro de que esse  o caso.
De fato, nunca antes tinha bebido assim.  que...calou. No devia nenhuma explicao a esse desconhecido, mas queria lhe oferecer uma; entretanto, no sabia o que poder dizer que no a fizesse parecer mais pattica. Esquece-o sorriu e estendeu a mo. Obrigado por tudo.
Ele assentiu e lhe estreitou a mo. Tinha estado a ponto de lhe contar o que tinha acontecido para impulsion-la a querer esquecer. Depois de tudo, as pessoas bebiam por isso. Para esquecer. Retirou a mo e deu um passo para trs.
Me alegro de ter estado ali para poder te ajudar disse com cortesia. E agora deve te esquentar. Peo a alguma das criadas que te traga uma sopa quente?
No. No, estarei bem se tirou a jaqueta dele. Quer levar isso agora ou fao que lhe engomem isso ...?
Calou, e ele soube o motivo. Rafe tinha baixado a vista a seus seios e os mamilos se ergueram imediatamente para se sobressair atrs da seda mida.
Carina olhou aos olhos. Nesse momento viu algo mais que dor. Certamente, o que viu lhe fez ferver o sangue. Estendeu as mos; ela retrocedeu, mas ele lhe tomou as mos e a deteve. Por que o fez? Inquiriu com tom spero, urgente. Por que te fez isso esta noite?
Foi... um fim de semana difcil para mim se umedeceu os lbios. Na realidade, essa foi a causa pela qual vim  festa. No ia fazer-lo, mas minha irm pensou que seria uma boa idia.  evidente que se equivocou.
Sua irm  uma mulher interessante sorriu.
A que te referes?
Insistiu para que eu te conhecesse. Disse que eras formosa e encantadora, e que te acharia fascinante.
No acredito!Carin se ruborizou.
Nosorriu outra vez. No exatamente, mas deixou claro que pensava que voc e eu formaramos um bom casal.
No  terrvel?ps os olhos em branco. De fato, tambm me falou de ti. Disse que eras incrivelmente atraente e encantador, incrivelmente tudo. Que tinha que te conhecer, porque eras...
Incrvelconcluiu Rafe, e os dois riram.
Hmmm. E pensei que se Mandy te considerava em comparao a ...
... no queria saber nada de mimseguia lhe segurando as mso. Elevou-as e passou os lbios pelo dorso das mos. Vais contar-me o que foi que te aconteceu? O que te fez beber para querer esquecer dessa maneira esta noite?
Observou as emoes que apareceram em seu rosto, soube que estava pensando em uma dzia de respostas fceis e viu o instante em que decidiu lhe contar a verdade.
Um homem que em uma ocasio significou algo para mim se...titubeou. Se casa esta noite.
Ahlhe apartou outra mecha do rosto, mas nessa ocasio deixou a mo sobre sua pele. Era to suave ao tato, to formosa... Que tipo de homem quereria a outra mulher quando podia ter a ela?. Lamento que sasse ferida.
No o lamentes. Alm disso, isso no  desculpa. No devia ter me comportado como uma tola.
Tomou o rosto entre as mos e a elevou para a seu ao mesmo tempo que lhe acariciava as mas do rosto com os dedos polegares.
O tolo  o homem pelo qual sofre, no voc.
Obrigado.  muito amvel em tratar de me fazer sentir melhor, mas...
Pensa que te diria algo assim se no acreditasse?apoiou as mos em seus ombros e a aproximou dele. Que homem poderia desejar a outra mulher se te pudesse ter?
Inclinou a cabea e a beijou, ao princpio com gentileza, um leve contato de suas bocas. Disse-se que a beijava para reafimar-lo, mas Carin o olhou com os lbios entreabertos, o pulso lhe palpitando no pescoo, e soube que esteva mentindo para si mesmo.
Tinha-a beijado porque queria ter seu sabor na lngua.
Carinvoltou a beij-la, e justo quando comeava a acreditar que havia se equivocado na interpretao do que via, ela gemeu e colou o corpo contra o seu, abriu a boca e lhe devolveu o beijo.
Notou que o corao lhe martelava. Desejava-a como no recordava ter desejado a outra mulher da mesma maneira. Uma parte ainda lgica de seu crebro lhe advertia de que desej-la com tanto desespero no tinha sentido, que tom-la quando ela desejava outro homem seria um erro, mas Carin lhe passou as mos pelo cabelo para lhe aproximar o rosto e lhe buscar a lngua com um beijo renovado.
Rafe deixou de pensar.
Gemeu e lhe passou as mos pelas costas, elevou o rosto ele e a colou a seu corpo para faz-la sentir sua dureza. Quando ela ronronou e se esfregou contra ele, Rafe se retirou, apesar de que precisou de todo seu controle.
Me olhe, Carindisse com aspereza. Me olhe e comprova que no sou o homem ao qual perdeu.
Sei.apoiou as mos em seu torso. Mas  o homem ao qual desejo.
Elevou-a no ar e a levou a cama. Ela era como uma chama que ardia de necessidade. Era seda sob suas mos, sob sua boca...
Senhor Raphael!
O grito o devolveu  realidade. Piscou, arrancou seus pensamentos daquela noite e viu o criado de sua casa galopar para ele. Sentiu um n no estmago. Joo tinha medo dos cavalos; os homens se burlavam dele. Nunca montava, a no ser que algo muito grave ocorresse.
Puxou as rdeas e foi a seu encontro.
Uma chamada telefnica, Senhor, de uma mulher que se chama Amanda Brewster Al Rashid. Diz que  urgente, que diz respeito a sua irm...
Carinsussurrou Rafe.
Esporeou ao cavalo, inclinou-se sobre o pescoo estendido do animal e cavalgou para a casa.
 


Captulo 3

Rafe. Rafe, onde ests?, gritou Carin em silncio, a voz reverberando somente em sua cabea.  um sonho, repetia-se uma e outra vez, somente um sonho. Abre os olhos e acorda.
No podia. Sentia as plpebras como se fossem de chumbo, as pestanas grudadas s bochechas. Quanto mais o tentava, com mais fora a agarrava o sonho. No obstante, lutou para deix-lo. A parte racional de sua mente lhe advertia de que se sucumbia  escurido, o caminho que tomasse levaria a um nada.
Ao momento a escurido comeou a ceder. Flutuou em uma espcie de crepsculo brumoso. As vozes penetraram no silncio, lhe insistindo para que abrisse os olhos e para deixar para trs o sonho.
Acorda, Carin.
Vamos, senhora Brewster. Abra os olhos.
Carin, querida, por favor, por favor, me olhe.
Reconheceu as vozes. Seu mdico. Sua irm. Tambm ouviu sua me e a seu padrasto e se perguntou o que todos faziam ali.
Carindisse seu doutor, vamos, Carin.  hora de despertar.
Oh, querida disse Marta, nos olhe, por favor. Pode faz-lo, Carin?
Carriedisse Amanda com firmeza, para com esta tolice e abre os olhos agora mesmo.
Ento esteve a ponto de sorrir. Fazia sculos que ningum a chamava de Carrie.
E nesse momento uma mo tomou a sua. Uns dedos fortes e quentes se enlaaram com os seus.
Carinsussurrou uma voz perto de seu ouvido. Me ouve? Agora deve abrir os olhos e me olhar.
Rafe? Estava ali, lhe segurando a mo, sentado a seu lado e lhe oferecendo consolo como j tinha feito no passado? Claro que no. Tinha sonhado outra vez, assim como nos ltimos meses, apesar de que tinha deixado claro que no queria voltar a v-la.
No  que ela queria v-lo. O que tinham feito estava mau. Era feio. Vergonhoso. No importava a excitao, o calor das mos dele, o xtase de senti-lo no mais fundo dela...
Rafesussurrou. Rafe? despertou com precipitao para encontrar-se s em um mundo de fria realidade e lembranas confusas.
Aquela noite. Oh, Deus, aquela noite terrvel. Fazendo amor com Rafe... exceto no tinha sido amor. Tinha sido sexo, sexo com um desconhecido. Ele tinha dado o que ela tinha querido, uma paixo que tinha banido todo o resto de sua cabea, embora quando havia terminado tinha ficado sumida em um auto despreo to grande que havia se soltado dos braos dele, foi ao banheiro, fechou a porta e se apoiou contra ela. Tremendo, temerosa de que ele fosse procur-la...
Rezando para que o fizesse.
Mas ningum tinha batido na porta do banheiro. Ningum tinha sacudido a maaneta. Ningum havia dito:
Carin, volta para meus braos. Quando ao fim saiu, Rafe se tinha ido. Tampouco estava l embaixo. No tinha deixado nenhuma mensagem. Nenhuma nota. Nenhuma chamada a esperava em sua secretria eletrnica em Nova Iorque nem teve nenhuma nos meses seguintes.
Uma hora. Uma incrvel, maravilhosa e terrvel hora, isso era quo nico tinha sido...
Salvo que no era verdade. O corao lhe deu um tombo. Aquela noite Raphael Alvares lhe tinha dado mais.
Tinha-lhe dado uma filha.
As longas horas de parto. Amanda que lhe agarrava a mo. A deciso do mdico de acelerar a chegada do beb ao mundo...
Meu bebdisse, as palavras eram um sussurro trmulo e desesperado.
Levou a mo ao ventre. Estava reto. Seu beb tinha nascido... sua filha, como tinha sabido desde o comeo. Nesse momento recordou que ao final algo tinha sado mal. Seu mdico lhe dizia que agentasse. A bolsa de plstico com sangue que estava pendurava em cima dela e gotejava em sua veia.
Incorporou-se. A cabea lhe deu voltas e o estmago oscilou em protesto.
Onde est meu beb?
Carin?
Girou a cabea e viu umas luzes brilhantes que entraram na habitao ao abrir a porta. Formas, pessoas, perfilaram-se contra ela.
Carindisse sua me. Oh, querida!
E ento os braos de Marta a rodearam. Carin chorou e se aferrou a ela enquanto outros se distribuam ao redor. Jonas estava ali, e Amanda, e inclusive seu meio-irmo, Slade, e a esposa deste, Lara...
Mas no Rafe. Claro que no. Ele s tinha sido um sonho.
Umas mos lhe deram umas palmadinhas nos ombros, acariciaram-lhe o cabelo. O leve aroma de sua me a envolveu; sentiu as lgrimas de sua irm quando suas bochechas se tocaram.
Essa  minha garotadisse Marta. Oh, querida,  magnfico ver-te acordada. Como se sente? Di-te? Lara, por favor, quer ir procurar  enfermeira?
 obvioreps Lara Baron, e lhe lanou um beijo antes de sair.
Me fale de meu bebsuplicou Carin. Mandy? Encontra-se bem?
Est perfeitaAmanda se sentou na beirada da cama e tomou a sua mo. E  preciosa.
Carin se deixou cair sobre o travesseiro. Sentiu lgrimas nos olhos e rindo as secou com os ndulos.
Quero saber de tudo.  grande? De que cor  seu cabelo? Quanto pesa?
Trs quilos e meio e sua cabea est cheia de cachos negros como a meia-noite.  perfeita.
Quero v-laapertou a mo de sua irm.
E a ver, queridaMarta voltou a abra-la. Dentro de um momento, prometo-lhe isso. Primeiro deixemos que o mdico te examine, de acordo?
No necessito de um mdico.
 provvel que tenha razo, mas no far nenhum dano deixar que te examine, verdade?Marta tirou um leno de renda da bolsa e se secou os olhos. Disse... disse que estava seguro de que a crise tinha terminado, mas todos... todos nos sentimos...lhe quebrou a voz.
Jonas apoiou a mo no ombro de sua mulher, deu umas palmadinhas com gesto torpe e sorriu a Carin.
Fez-nos passar um mau pedao durante um momento.
Sim?moveu a cabea. No... no recordo muito.
No, suponho que no. Esquece-o. Quo nico importa  que agora tudo est bem.
Onde est meu beb? No berrio?
HmmmAmanda sorriu. E faz que todos as outras crianas paream feios em comparao.
Amanda tem razoMarta sorriu enquanto apartava o cabelo das tmporas de sua filha.  como voc, querida. Bom, exceto pela boca. Suponho que tem a de seu pai...todo mundo a olhou e Marta se ruborizou. Quero dizer,  preciosa.
Aposto que Carin suspirou. Olhou a Slade e sorriu. O que voc faz aqui?
Lara e eu no tnhamos nada melhor a fazer... Boston est perto, querida. Dissemo-nos que deveramos esperar at que abrisse os olhos.
s um encanto.
Diabos, os Baron o sose aproximou do outro lado da cama e tomou sua mo. Travis, Tyler e Gage lhe enviam todo seu carinho.
Sada-os de minha parte quando falar com eles.
E meu Nicholas vir dentro de um momentocomentou Amanda. As lgrimas apareceram em seus olhos e as limpou. Nos deu um bom susto, irm.
No era essa minha intenosorriu. Apoiou a cabea no travesseiro e o sorriso se desvaneceu. Lamento lhes ter feito passar por tudo isto.
No tem que lamentar nadaafirmou Marta. S desejo que tivesse ficado conosco em Espada faz meses...pigarreou. Bom, isso j  gua passada. O importante  que saste desta, e que tens um beb so.
Queri que tivesse sido diferentesentiu um n na garganta. Queria... no ter decepcionado a todos.
Tolices, querida. Quem poderia estar decepcionado por ter um novo membro na famlia?
Eu lhe disse o mesmo, mameAmanda elevou a vista quando Lara entrou na habitao. Vem o doutor, disse em silncio e Amanda assentiu. Disse que todos a acompanharamos, que no teria que passarpor isso sozinha.
Exatogrunhiu Slade. O aconteceu a idia de Responsabilidade, com R maiscula?Lara lhe lanou um olhar de advertncia e ele franziu o cenho. Bom, que diabos,  a verdade, no? Se Carin nos tivesse contado isso desde o comeo, um de ns, demnios, todos, teramos ido ao Brasil e...
Brasil?Carin se incorporou sobre o travesseiro. A que te refere com que teriam ido ao Brasil?olhou a sua irm. Eu jamais contei... nada.
Hmmm, noAmanda pigarreou. No, no o contou. Ao princpio.
Ao princpio? Nunca. Voc no parou de perguntar e perguntar, mas eu jamais disse...
De fato, fez-oAmanda titubeou. Olhe, por que no o falamos em outra ocasio? Quando se sentir mais forte.
Sinto-me forte agora. A que te refere com o que falei?
Estava atordoada. E... e o chamou. Ao Raphael Alvares.
E o contou a todos?ficou plida. Oh, Mandy, por que? Por que fez isso?
No o contei a ningum. Bom, s a Nick, mas...
Ento, como Slade sabe?
Ele... simplesmente... sabereps Amanda, olhando a Slade.
Sabe porque voc o contou. E para que? Certamente, no quero que nenhum de vos v ao Brasil para  dizer a Rafe que... que  o pai de minha filha.
Bominterveio Jonas, ningum ter que faz-lo, porque...
O fato  que ningum o farasseverou Marta. Jonas bufou, e ela se clareou garganta. Me refiro a ir ao Brasil.
Espero que no. Raphael Alvares  o ltimo homem ao qual quero ver.
Queridadisse Marta com doura, no falas a srio.
Certamente que sim.
Possivelmente este no seja o melhor momento para tomar decisesindicou Jonas. Pode que deseje pensar nas coisas. E seu beb tem algo a dizer no assunto.- passou-se um dedo pelo gola da camisa. Possivelmente o aprendi um pouco tarde, mas um menino tem direito de saber quem  seu pai.
Olhemcomeou Carin com tom cansado, sei que suas intenes so boas, que querem nos proteger, a minha filha e a mim, mas tm que entender que fiz o correto. As coisas foram distintas para Tyler e para ti, Jonas...
As coisas sempre so diferentesbufou Slade. Mas um homem tem direito de saber que  pai, e de te dizer o que sente a respeito. Se uma mulher lhe negar esse direito, pode fazer algo para reclamar...
Slade, pelo amor do cu!Marta olhou furiosa a seu enteado. Temos que discutir isto agora?
Tem razorespirou fundo. Carin, querida, sinto muito.
No, est bem. Sei que se preocupa por meu estado, mas confia em mim, isto  ...  distinto de como foi para ti, Jonas, ou para ti, Slade...
Sim, claroSlade vacilou, depois se inclinou e beijou a testa de Carin. Mas no esquea uma coisamurmurou, os homens nem sempre so o inimigo, pequena.
Seisorriu e tomou sua mo. Me ocorrem alguns que podem encaixar na categoria de bons tipos.
Mas no Raphael Alvares. No imaginava a ningum considerando-o como um bom tipo. No obstante, era o tipo de homem que Slade havia descrito, que faria algo para conseguir o que queria. Apesar do pouco que o conhecia, sabia que moveria cu e terra para reclamar uma coisa, se a quisesse o suficiente.
A ela no tinha querido.
Emitiu um som angustiado e Marta tomou sua mo.
Carin? Querida, do que se trata?
No  nada. De verdade, estou bem sorriu e apertou a mo de sua me para tranqiliz-la. Estou um pouco esgotada... isso  tudo.
Certamente. E aqui estamos ns te dando discursos, quando deveramos te deixar dormir  deu um beijo e se voltou para outros. Tenho uma idia  anunciou com vigor . Slade, v procurar um pouco de caf. Jonas, voc espera na sala. Lara, voc e eu iremos procurar a esse doutor...
Carin aferrou a mo de Amanda enquanto os Baron saam da habitao.
Mandy?
Hmmm?Amanda se inclinou.
Quero que me prometa que no far nada.
Nada a respeito do que?
J sabe. No quero que tenha a tola idia que parece que todos tm de entrar em contato com Rafe.
Bomse ruborizou, de fato, irm, como no parava de mencionar seu nome, pensei... bom, dava a impresso de que queria...
A ele noafirmou com veemncia. Nunca ele!
Bom... no se preocupe com isso agora, de acordo? Te concentre em te pr melhor  a voz de Amanda se suavizou . E pensa em sua filha, em que querer fazer todo o adequado por ela.
Oh, farei-osuspirou. Estou impaciente por v-la.
O que te parece se for procurar  enfermeira para que te traga o beb?
De acordo  aceitou e bocejou.
A porta se fechou devagar. Carin bocejou outra vez, fechou os olhos e deixou que seus pensamentos vagassem. Seu beb. Sua pequena. Estava louca para v-la. Pareceria-se com seu pai?
Rafe era muito atraente. Esses olhos escuros e profundos, esse cabelo preto e sedoso, a boca firme, maravilhosa quando esteve sobre a sua...
Tinha sido um amante to incrvel.
Forte. Poderoso. O corpo duro enquanto se movia em cima dela. Mos hbeis e peritas, que a tocavam de formas que Frank jamais a havia tocado, at que Carin gritou, arqueou-se contra ele, instante em que Rafe a tinha elevado para penetr-la devagar, devagar, at enterrar-se em seu interior.
Tinha alcanado o orgasmo no momento da penetrao, para repeti-lo uma e outra vez, algo que nunca antes lhe tinha acontecido. Jamais tinha atingido o clmax to depressa, to alto, nem tinha querido que a noite durasse para sempre...
Abriu os olhos. No que estava pensando?
Acabava de dar a luz. O sexo era o ltimo que deveria ter em mente. No sabia por que seguia dando um matiz romntico ao que tinha acontecido. Rafe nem sequer tinha tentado fingir que levar-la  cama tinha significado algo; afastou-se dela como se tivesse sido uma garota de programa barata.
Sentiu um n na garganta.
Carin?
Abriu os olhos. A habitao se achava vazia, exceto pelo mdico, de p junto  cama.
Doutor  se sentou com os olhos brilhantes. Quero ver minha filha.
Sim  sorriu, isso me dizeram. D-me cinco minutos para examin-la e direi que a tragam.
Cinco minutos, nem um segundo mais  lhe devolveu o sorriso.
Tem minha palavra. De acordo, vou te dar uma olhada.Recline-se um pouco. Respire fundo. Solte o ar devagar. Bem. Sabe que quando lhe dermos a alta, necessitar tempo para recuperar-se.
Tomarei um par de semanas livres.
Vai necessitar mais que um par de semanas. Durante um tempo estars cansada. Requerer a ajuda de algum com o beb, para poder descansar.
Sou forte como um carvalho, doutor. Estarei de p em um abrir e fechar de olhos.
Sim, mas se forar a situao,  possvel que o lamente. E pelo bem do beb, no querer que isso acontea. Deixe que comprove o ventre...
J pensarei em algodisse enquanto o mdico a pressionava com gentileza. Me fale de minha pequena. Minha irm me h dito que est bem.  assim?
Mais que bem. Tem o melhor par de pulmes do berrio.  uma pequena beleza. Di-lhe quando aperto aqui?
Nofez uma careta. Bom, s um pouco.
No  nada. Vais muito bem  se ergueu e lhe sorriu enquanto guardava o estetoscpio. Recorda quo assustada estava quando veio para ver-me e como lhe disse que tudo ia sair bem? Assim foi. Averiguei que sua famlia est encantada com o beb e que o pai quer formar parte da vida de ambas. Acredito que  notvel.
Sim, suponho que o ...calou. O que?
Hei dito que acredito que  notvel...
Deve estar me confundindo com outra paciente. O pai de meu beb desconhecia que eu estivesse grvida. No sabe que tive uma filha. E nunca saber.
Bom, certamente isso depende de voc  o doutor pigarreou. Enquanto isso, suponho que querer que  diga  enfermeira que venha visit-la com a pequena.
Isso seria maravilhoso.
Bem  tomou a mo. Uma ltima coisa...
Sim?
As coisas mudam, Carin.  possvel estar convencida de que se encontra no caminho correto na vida e ento, de repente, descobrir que tem que tomar outro.
J aprendi issomurmurou.
Sim, bom, s vezes aprendemos a mesma lio em mais de uma... ah  girou para a porta quando se abriu. Aqui est seu beb.
Carin se sentou. O doutor voltou a lhe dar um tapinha no ombro, depois se dirigiu para a porta. A fornida figura lhe bloqueou a vista enquanto ela se movia na cama, tratando de obter a primeira olhada de seu beb.
Minha pequena  disse feliz.
E minha  acrescentou uma voz com frieza. Ao menos  o que me contaram.
Elevou a vista para o rosto do homem que sustentava  menina nos braos.
Era Raphael Alvares.



Captulo 4

Estava ali.
O sonho tinha sido real. Rafe tinha ido procurar-la...
Mas no. Outra olhada a seu rosto e soube. No tinha ido por causa dela.
Querida  disse.
O tom de voz, o meio sorriso nos lbios, convertiam o termo carinhoso em uma brincadeira.
Rafe  pigarreou. Percorreu-a uma onda de medo, mas isso era uma tolice. O que tinha que temer? Slade, ou outro dos Baron, tinham-no mandado buscar. Quo nico devia fazer era lhe informar de que se equivocaram...
Parece surpreendida de ver-me, Carin.
Sim. O... o estou. O que... o que faz aqui?
Querida, vim para ver-te  se aproximou da cama com a vista cravada no pequeno beb que dormia em seus braos. E para ver nossa filha.
O que faz com meu beb?
No querer dizer o que fao com nosso beb? O consenso parece ser que a pequena  minha esboou outro sorriso tenso . Uma das enfermeiras pensou que um pai deveria acostumar-se a seu rebento. Decidi agrad-la.
Me d a minha filha.
Certamenteaceitou com cortesia. Mas, primeiro, querer ser to amvel de me informar de por que afirmaste que sou seu pai?
No sei do que falasme espetou. Me d ela, Rafe.
Obedeceu. Carin embalou  pequena contra seus seios e a balanou enquanto lhe dava um beijo no cabelo escuro. Ele observou desapaixonadamente enquanto lhe tocava o p diminuto e depois cada dedo com gesto quase solene. As lgrimas brilharam em suas pestanas, em seguida caram por suas bochechas.
Minha pequenamurmurou, beijando-a outra vez.
Rafe aproximou uma cadeira, deu-se a volta e se sentou com os braos apoiados sobre o respaldo.
O beb emitiu um gritinho.
Sshhh, pequenamurmurou ela.
Rafe se perguntou o que estava fazendo a. Por que tinha respondido  frentica chamada telefnica de Amanda, lhe dizendo que Carin estava em trabalho de parto?
 algo que no me interessahavia dito com voz gelada. Comunica-o a seu amante, ao homem que plantou ao beb em seu interior.
Esse homem  voc.
Isso 酗impossvel, tinha comeado a dizer, mas no era assim. No tinha usado um preservativo; tampouco tinha perguntado a Carin se tinha sua prpria proteo. Tudo tinha acontecido com tanta rapidez, a necessidade de possui-la, a corrente precipitada do desejo que tinha descartado a lgica...
Minha irm se negou a contamos quem a deixou grvida  tinha manifestado Amanda com voz quebrada.
E agora  tinha respondido ele, enquanto tentava processar a informao, e agora, de repente e de forma conveniente, decidiu compartilhar seu segredo?
Amanda tinha comeado a chorar. Rafe se havia dito que os soluos da irm de Carin no significavam nada, mas o som o tinha esmigalhado, at que ao final tinha fechado os olhos e inspirado.
Me conte  tinha pedido.
Contou-lhe tudo, que Carin tinha estado muitas horas de parto e que ao final algo tinha sado mal.
Est perdendo muito sanguetinha sussurrado . E... e, no sei, pode que saiba que possivelmente... possivelmente no o consiga, porque quando me deixaram v-la, estava consciente pela metade... mas me agarrou a mo e perguntou por ti.
Rafe se moveu incmodo na cadeira.
Esse foi o momento em que tinha largado o telefone e empreendido uma viagem que sabia que podia chegar a mudar a sua vida. Se o beb que vinha ao mundo era dele, que outra coisa podia fazer? Ia ficar ao lado de Carin pelo beb. S pelo beb. No tinha nada que ver com ela.
Podia fazer menos um homem que no tinha conhecido a seu pai?
Durante a longa viagem a Nova Iorque fazia planos. Solicitaria um exame para demonstrar a paternidade.
Ficou de p, colocou as mos nos bolsos e contemplou  mulher com a qual tinha passado a hora mais apaixonada de sua vida. No era a beleza deliciosamente vestida que tinha conhecido naquela noite. Tinha o rosto plido e livre de maquiagem. Sob os olhos mostrava sombras que s ressaltavam sua fragilidade.
No importava.
Sempre seria uma mulher pela qual um homem perderia o juzo tal como ele tinha feito. Sexo desprotegido. Nunca antes tinha cometido semelhante estupidez, e nesse momento pagava o preo...
Se ela estivesse dizendo a verdade e a menina fosse sua.
Olhou ao beb. A pequena era formosa. Tinha o cabelo preto de sua me, os olhos grandes, o nariz pequeno e reto, embora se disse que possivelmente todos os bebs fossem assim. Pouco sabia de crianas. Sua prpria infncia era uma mancha imprecisa e escura.
Respirou fundo. Por tudo o que sabia, o pai era o amante que tinha sido uma presena espectral entre eles naquela noite.
A porta se abriu e entrou uma enfermeira que sorriu a ambos e se dirigiu ao lado da cama.
Como nos sentimos?perguntou a Carin.
Bem  embora no soasse bem. Tremia-lhe a voz e a Rafe deu a impresso de que tinha muito cor no rosto.
A enfermeira pareceu pensar o mesmo.
Hmm  lhe tirou o beb dos braos e se voltou para ele. Quer segurar a sua filha um momento, por favor?
No  Carin se apressou a dizer , preferiria...
Os braos de Rafe se fecharam em torno da menina ao mesmo tempo que a mo da enfermeira se fechava em torno da mo de Carin.
Comprovemos seu pulso. Bem. Agora deixe que tome sua temperatura...
Est doente?perguntou Rafe com brutalidade.
No, no, estou segura de que sua esposa se encontra bem.
No  mi...pigarreou. No era assunto de ningum a relao que tinham. Possivelmente se esforou mais do que deveria.
Hmmm  a enfermeira leu o termmetro, esboou outro sorriso artificial e subiu a manta at o queixo de Carin. Precisamos descansar muito se quer partir dentro de uns dias.
Uns dias? Tenho que ficar tanto tempo? Eu gostaria de ir a casa o mais breve possvel.
Deve aproveitar ao mximo este tempo, querida. Assim que v para casa, o beb a manter acordada quase todas as noites  se voltou para Rafe e lhe tirou  menina dos braos. Estou segura de que seu bonito marido a levar encantado, verdade, papai?
Certamente  respondeu ele com rigidez, e se perguntou quanto tempo era preciso para realizar um exame de paternidade e analisar os resultados.
Resultou que nenhum.
Um par de dias  lhe informou o doutor, como se os pais novos lhe fizessem essa pergunta a todo momento. Suspeito que algo menos se estiver disposto a pagar uma tarifa extra ao laboratrio.
Rafe estava disposto. E tambm o laboratrio. O nico que faltava era que Carin aceitasse. Esperou at que sua famlia se fosse jantar. Ento bateu na porta de sua habitao.
Sim?disse com voz suave.
Ele abriu e foi diretamente para a cama.
Temos que falar  comeou... e o resto do que pensava lhe dizer lhe fez um n na garganta. O beb se alimentava nos braos de Carin. Rafe captou uma olhada do rosto aceso, do seio de cor marfim, redondo e cheio, e desviou a vista . Minhas desculpas  comentou com voz rouca. Pigarreou ao falar com a parede, e se disse que no havia nada no que tinha visto que tivesse que faz-lo sentir como se tivesse corrido dez quilmetros . Voltarei quando estiver... Voltarei.
Ficou apoiado na parede do corredor, tratando de no pensar em nada, mas foi impossvel. As imagens das coisas que tanto havia se esforado em esquecer se formaram em sua mente. Carin em seus braos naquela noite. O corpo dela, movendo-se sob o seu. Os gritos meio contidos, os sussurros. E agora: o beb mamando do seio que ele tinha acariciado e beijado...
Passou as mos pelo cabelo. Queria um cigarro, tanto que quase podia sentir o sabor do tabaco na boca, o qual era uma loucura, porque fazia anos que no fumava.
Ao final, uma enfermeira entrou na habitao e saiu com a menina nos braos. Rafe ergueu os ombros e retornou. Carin estava sentada na cama, e ele decidiu no perder tempo em lhe contar por que tinha ido.
Arrumei que a primeira hora da manh se realizem uns exames e anlise.
Exames?
Sim. Para demonstrar a paternidade da menina.
No  preciso nenhum exame  afirmou ela com olhos cintilantes.
Sim so necessrios. No esperar que aceite a responsabilidade de sua filha sem nenhum exame.
Tens razo  reps com cortesia. No espero que aceite a responsabilidade.
Se tiver medo do procedimento,  indolor. Tiraro-lhe um pouco de sangue, isso  tudo.
Maldita seja! Achas que por isso lhe... ? respirou fundo e juntou as mos no colo . No tenho medo do exame.
Bem. Direi ao laboratrio...
Mas no vou fazer-lo. No h motivo para provar a paternidade.
Sim h, se esperas que reconhea  menina como minha.
No o espero. No o tem descoberto ainda?
Voc pediu que eu viesse, Carin.
No. Amanda parece pensar que... disse seu nome enquanto estava... Sem importar o que disse, no pedi que voc viesse.
Estava to serena, to contida. Mas se o beb era dele, por que no o tinha chamado? Que tipo de mulher quereria manter um pai separado de sua filha?
Mas se ela era capaz de manter o controle, ele tambm o era.
No obstante, aqui estou. E pretendo averiguar se o que afirma sobre esta menina  verdade.
Eu no afirmei nada.
Est me dizendo que a menina no  minha?
Carin o olhou fixamente. Seria to fcil mentir... mas algum dia a pequena quereria conhecer os detalhes de seu nascimento, e teria direito de saber a verdade.
 minha filha  reps com tranqilidade. A levei em meu ventre. Eu a trouxe ao mundo.
Esse  um discurso encantador. Por desgraa, ainda no respondeste a minha pergunta.
Acreditaria-me se o fizesse? deixou-se cair sobre os travesseiros. V pediu cansada. No quero nada de ti.
Nem sequer um cheque por ms, para a manuteno da menina? cruzou os braos e a observou com os olhos entreabrertos.
Pedi-te algo?
Como poderia? Nem sequer me contou que estavas grvida fez uma careta. Ou pensou que estaria mais impressionado se apresentasse um beb em vez de um ventre inchado?
Carin apartou a manta. Ele estendeu um brao para det-la mas ela o separou de um tapa.
No me toque! havia um robe de algodo branco na cadeira. O colocou e se levantou. No necessito de sua ajuda para nada. Sou perfeitamente capaz de fazer as coisas por minha conta. Posso me levantar da cama. Posso caminhar. Posso fazer tudo o que desejar, e o que desejo agora  que saias da minha frente.
Pode querer o que desejar. Mas eu farei o que deve ser feito. Se resultar que este beb  meu, farei o correto.
Se resulta ser...?  riu e cruzou os braos. Por que no simplifico as coisas para os dois, Rafe? No achas que minha filha  tua? De acordo. No .
Ele tinha esperado essas palavras, mas,  que significado tinham se lhe eram atiradas como pedras?
Sua histria muda de minuto em minuto  indicou, cruzando tambm os braos . No percorri toda esta distncia para que brinque comigo, Carin. Tenho direito a que se realizem os exames adequados.
Deus, quanto tempo mais terei que tolerar isto?, pensou Carin. Desprezava a Raphael Alvares. Seu ego. Sua arrogncia. Sua insofrvel certeza de que o mundo girava em torno dele.
Estar outra vez cara a cara com ele, o ouvir acusar-la de mentir, ver como procurava formas para evitar a responsabilidade de sua prpria carne e sangue, era a nica prova que necessitava para confirmar que tinha feito bem ao no entrar em contato com ele.
Quanto mais cedo o tirasse de sua vida, e da de sua filha, melhor seria.
Ouviste o que eu disse?  Rafe a tomou pelos ombros. Exijo um exame de paternidade. Estou em meu direito.
Seu direito? Seu direito?  riu e se soltou. Voc no tem direitos. Coloque isso na cabea.
Sua famlia no estar de acordo.
Minha famlia no toma minhas decises.
Dir isso  menina quando crescer? Que um homem que diz que era seu pai veio a te pedir que demonstrasse essa paternidade e voc se negou?
O que lhe direi  reps com frieza,  que estar muito melhor sem te conhecer.
No tenho por que te suplicar  entrecerrou os olhos. Preferiria fazer-lo de forma calada, mas se te nega...
Neguei-o. O que acontece  que te custa aceitar um no por resposta.
Um juiz me concederia o direito a esse exame . Com a cabea indicou o telefone. Se no me acreditas, chama a teu meio-irmo, o advogado. Estou seguro de que o confirmar.
Ela o olhou por um longo momento. Depois se sentou na beira da cama.
Por que faz isto?sussurrou.
Acabo-te de dizer que quero fazer o correto. Se esta menina for minha, quero que a eduque de maneira apropriada. Negar-lhe isso?
No lhe negarei nada.  a ti a quem nego.
Voc no  quem deve realizar essa escolha. Esta discusso terminou. No te peo que te faa a anlise. Ordeno-lhe isso.
Possivelmente suas ordens sejam aceitas pelas pessoas com a quais habitualmente trata, mas eu no vou aceitar-las  se levantou e deu um passo para ele com os olhos acesos. Saia  espetou com fria. Ele no se moveu e lhe cravou um dedo no centro do peito. V embora, maldita seja! Fora!
Rafe a tomou pela mo e a colocou contra o peito.
De repente os poucos centmetros que os separavam pareceram carregados de eletricidade. Passaram os segundos e ento ele a soltou e retrocedeu um passo.
Vim porque pensei que voc tinha me chamado  explicou com frieza.
E se o tivesse feito?  o corao lhe palpitava com fora, e tudo pelo modo em que ele a tinha olhado. Saber que ainda podia ter esse efeito sobre ela a enfurecia mais. O que teria feito ento?
Pensou em como tinha largado o telefone depois de falar com Amanda, em como tinha corrido para  informar ao piloto que preparasse o avio...
Faria exatamente o que estou fazendo agora  respondeu. Teria exigido respostas.
E j lhe dei isso. Que voc no goste  seu problema.
Por que no entrou em contato comigo uma vez que se inteirou de que estava grvida?
Para que? Teria-me acreditado mais que agora?  os olhos lhe brilharam com desafio. Para ti eu no sou nada, Rafe, e voc  nada para mim. Deixemo-lo assim.
Se criamos um beb juntos, isso muda a equao.
Re... reconheo que pensei em te chamar, mas...
Mas?
Mas... titubeou, recordando a emoo que experimentou ao descobrir que estava grvida, o momento em que quis pegar o telefone e o reconhecimento da impossibilidade de dizer a um homem que no conhecia, que vivia a milhares de quilmetros, que lhe tinha dado as costas sem olhar para trs, que esperava um filho dele . Mas  continuou encolhendo-se de ombros, me neguei a isso. Voc e eu... somos desconhecidos. No podia recorrer a ti em busca de ajuda.
Desconhecidos que se juntaram e criaram um beb  disse com frieza. - o que voc gostaria que eu acreditasse, no?
 a verdade!
?  encolheu-se de ombros, foi  janela e apoiou as costas na parede. Uma anlise determinar isso.
Sentou-se outra vez na cama e se passou as mos pelo cabelo. Ele estava deixando seu mundo de pernas para o ar, mas tinha razo. Sua filha tinha direito  mesma verdade que procurava Rafe. Era ela a que estava sendo egosta, no ele. Elevou a vista.
De acordo  murmurou. Farei a anlise e permitirei que o faam a minha filha  Rafe assentiu devagar sem revelar o que pensava. O farei porque  verdade que minha filha tem direito a conhecer o nome de seu pai, porque no mentiria em algo assim.
Ele emitiu uma risada desagradvel.
Claro que o faria, querida.  uma mulher acostumada a sua liberdade, e agora tem uma filha no planejada em sua vida. O que acontecer a essa vida se tiver que dedicar os dias a trabalhar e as noites a estar em casa balanando um bero?  esboou um sorriso de predador. Os dois sabemos que eu posso mudar isso.
Carin se apoiou no travesseiro. O robe se abriu; viu que os olhos de Rafe se pousavam em seus seios, grandes e cheios de leite sob o fino algodo da camisola. Quis fechar o robe, mas soube que de algum modo isso lhe daria uma vantagem. Em seu lugar, juntou as lapelas devagar, como se se achasse sozinha.
Equivoca-te. Em tudo.
De verdade?  com as mos nos bolsos, caminhou at ela. No que?
No levo o tipo de vida que acreditas que levo. E tenho um trabalho. Uma carreira. Ganho um bom salrio.
Quer dizer que tinha uma carreira.
Perdoa?
Agora  me.
E?
Que sua carreira se terminou.
Carin riu. Era a primeira vez que ria em mais tempo de que recordava, e foi grato.
 possvel que ainda ningum lhe tenha falado isso, mas estamos no sculo vinte e um. As mulheres trabalham e criam seus filhos ao mesmo tempo. Estou convencida de que para ti  algo novo, mas...
Fazem-no as mulheres que no tm mais remdio. As mulheres que dispem de uma escolha, no o fazem.
Ento  magnfico que eu tenha uma alternativa.
Sua segurana resulta divertida, querida  se deteve junto  cama. Embora esteja segura de tudo. Desta menina, por exemplo.
Voltamos a isso?  reps cansada. J disse que faria o exame...
S estive contigo uma vez. Sabe que probabilidades tem de ficar grvida em um s encontro? experimentou um tic na mandbula. Veio para mim da cama de outro homem. Prometo-te que o lamentar se se tratar da filha de seu amante e tenta me utilizar, uma vez mais, para fazer o que desejaria que ele tivesse feito.
Odeio-te  sussurrou ela. Sentiu lgrimas nos olhos e as secou com o dorso da mo. Maldito seja, odeio-te!
No  o que me disse aquela noite  exps com frieza, no enquanto me encontrava dentro de ti.
Baixou a cabea e a beijou, lhe esmagando a boca enquanto colocava a mo em seu cabelo e lhe elevava o rosto. Ela emitiu um som suave, metade protesto, metade algo que podia ser uma rendio. Isso fez que todo o sangue de Rafe se concentrasse no meio de suas pernas e se apartou, odiando aos dois pelo cruel capricho do destino que os unia.
Miservel... canalha!  exclamou Carin.
Rafe pensou que ela tinha razo, que ele era exatamente o que ela o acabava de chamar, e que estava ali porque se encarregaria de que sua filha, se  que o era, levasse seu sobrenome.
Levei-a em meu ventre  a voz de Carin tremeu pela emoo. Lhe dei a vida, quase a custa da minha. E serei eu quem realizar as escolhas que definam sua vida. Melhor que aceites isso...
Viemos de mundos diferentes, querida. No teu, a moralidade  um jogo. No meu, as mulheres conhecem seu lugar. Os homens governam seus lares, suas vidas e a suas mulheres.
Que desgraa para essas mulheres.
Pode pens-lo  riu com frieza, mas se o exame demonstrar que de verdade sou o pai da menina, aprender que essa vida tem suas vantagens  cravou a vista nos lbios dela. Uma mulher obediente no tem nada do que preocupar-se. Est bem atendida.
Tambm a gata de meu vizinho, mas nenhuma das mulheres que conheo trocaria seu lugar com ela.
Ah.  uma excelente analogia. Um gato aprende qual  seu lugar, aprende a obedecer ordens simples e a permanecer perto de casa, e por isso recebe sua recompensa.  acariciado e mimado. Obtm presentes. E se for muito, muito bom,  permitido passar as noites no dormitrio do seu dono.
Do que ests falando?  de repente experimentou um calafrio. O que isso tem a ver comigo ou com minha filha?  ele sorriu e Carin sentiu como se ante ela um abismo tivesse se aberto.  tarde murmurou. Por favor, v embora j, Rafe. Estou muito cansada.
Ele pde ver que era verdade. A via muito plida e a boca mostrava um leve tremor. Imaginou que se a  tomasse nos braos, no para fazer amor, mas para consol-la, o que lhe demonstrou o hbil que ela era para conseguir que um homem ficasse alheio  realidade. 
O resto do que tinha que lhe dizer podia esperar at depois do exame.
Sim. Descansa,  obvio. Depois que sair do hospital, e ento sua vida mudar. Ser melhor que te prepare para isso.
Certamente que minha vida trocar  conveio. Sei. E estou pronta para isso.
Rafe se deteve com a mo na maaneta da porta. Devagar, voltou-se e a olhou.
Isso espero, querida  sussurrou. Embora eu o duvide.



 
Captulo 5

Nova Iorque desfrutava de uma primavera ensolarada e quente, mas o clima mudou subitamente.
Chovia a manh em que Carin ia sair do hospital. Isso encaixava com seu estado de nimo enquanto estava sentada em uma cadeira frente a uma representante do Bio Tech Labs. Esta lhe tinha levado os resultados das anlise que Rafe, a menina e ela se feito.
Era o pai de sua filha.
Carin j sabia, mas ver a informao impressa em tinta preta tinha-lhe provocado uma comoo emocional. Tentou no mostrar o que sentia, mas sabia que no tinha muito xito, porque a empregada do laboratrio se deteve no meio de uma frase.
Encontra-se bem, senhorita Brewster?  perguntou a mulher. Chamo  enfermeira?
No, no, estou bem.  que... tanta chuva... Hoje faz frio, verdade?
Sim  concordou a representante do laboratrio.
Quando Carin considerou que poderia falar sem que lhe tremesse a voz, dobrou o relatrio, com cuidado voltou a coloc-lo no envelope e o estendeu. A mulher moveu a cabea.
Oh, no, senhorita Brewster. Essa  sua cpia. Guarde-a, por favor. E agora, antes de que v, h algo que no tenha entendido ou que queira que lhe explique?
Sim, pensou. Como a paixo irrefletida de uma noite pode conduzir a semelhante confuso? No pelo nascimento de sua filha, a quem adorava. O que no entendia era como de repente Rafe havia se convertido em parte de sua vida.
Em um abrir e fechar de olhos, tinha passado de ser um desconhecido a exigir participar do futuro da menina. Gostasse ou no, ia ter que tratar com ele.
Senhorita Brewster?  Carin elevou, os olhos. Quer me formular alguma pergunta?
No, no, obrigado. O relatrio est... muito claro.
Orgulhamo-nos de nossa claridade  a mulher fechou a maleta, ficou de p e estendeu a mo. Ento, s me cabe lhe desejar a melhor das sortes. Esperamos que nossos servios tenham sido de ajuda.
Obrigado  estreitou a mo da mulher e a observou dirigir-se para a porta. De fato... de fato, h uma coisa...
Sim?
O senhor Alvares j recebeu uma cpia do relatrio?
Certamente. Ontem. Era muito tarde para trazer a voc, mas ele solicitou a informao assim que...
Obrigado. Entendo  o qual no era certo.
A porta se fechou. Carin olhou o relatrio que tinha no colo. Se Rafe tinha visto a prova exigida, por que no tinha dado sinais de vida? Imaginou que at o final devia ter se agarrado  esperana de que Frank fosse o pai da menina.
Sua arrogncia a enfurecia; sua negativa em acreditar que a tinha deixado grvida a insultava. E o modo em que a tinha olhado na noite anterior, quando lhe falou das mudanas que podia esperar na vida, aterrava-a.
Ele tinha insistido nas provas, e j as tinha, junto com seu nome na certido de nascimento. Carin no tinha esperado receber o relatrio de paternidade. Conhecia quais iam ser os resultados, razo pela qual na noite anterior tinha dado instrues ao hospital de inscrev-lo como pai. Tambm lhe tinha posto nome  menina.
Sua filha ia chamar-se Amy.
Amy  sussurrou e elevou  pequena do bero justo no instante em que Marta Baron entrava na habitao.
Oh,  preciosa  sorriu feliz a sua filha e a sua neta. Amy. Que nome to encantador e tradicional. Agradou a Rafe?.
No tenho nem idia  respondeu com frieza. No o consultei. No  assunto dele.
Vamos, querida. Sei que est zangada com ele, mas...
Zangada? Com um homem que exigiu um exame de paternidade antes de reconhecer que  o pai de minha menina?  riu ao ficar de p. No  a palavra exata, me. O que me recorda... chegaram os resultados  endureceu a voz. Rafe j tem as provas que queria.  o pai de Amy.
 obvio que   corroborou Marta enquanto estendia os braos para Amy. Ol, preciosa. Como se encontra minha menininha esta manh?
Est bem, e louca por ir para casa. Assim como eu.
Ainda no, querida. Temos que... esperar at que... venha a enfermeira  sorriu. No pode sair de qualquer jeito de um hospital. Tm que ir de cadeira de rodas.
No necessito de uma cadeira de rodas  se odiou por soar como uma menina malcriada. Sou perfeitamente capaz de caminhar.
No seja to impaciente. Alm disso, prometi a Rafe... mordeu-se o lbio. Irei procurar  enfermeira.
Aguarda um momento  freou a sua me pelo brao. O que prometeu a Rafe? E quando falou com ele?
Oh... Marta moveu a mo no ar . Faz um momento.
Est aqui? No hospital?
No. Ainda no... ruborizou-se. Oh, estou dizendo muito!
No o suficiente. O que acontece?
Nada.
Sua me se negava a olh-la nos olhos.
Mame  murmurou, que no me ests dizendo? Do que teriam que falar Rafe e voc?
Pelo amor do cu, no seja assim, Carin. O homem  o pai de sua filha.
Graas a uma loucura temporria  afirmou com frieza.
Est decidido a fazer o que  correto pela menina, e por ti.
Claro. Por isso no chamou nem sequer para desculpar-se por ter dito que eu mentia, por acreditar que tinha estado com Frank quando ele foi o nico...respirou fundo-. Isso  uma tolice. O que acha Raphael Alvares  assunto dele. Por favor, vamos j.
O nico que te peo  que seja justa, querida. Contigo mesma, com o beb e... com Rafe.
No acredito. Vais defender-lo?
Bom, acredito que poderia ter sido mais aberta conosco Carin. Por que nos fez acreditar que os dois s tinham passado uma noite juntos ... ?
Carin olhou fixamente a sua me, que guardou silncio. Todos haviam ficado loucos?
Do que est falando, mame? Foi somente uma noite. Por que eu ia inventar isso se no fosse certo? No sei que conto de fadas lhes contou Rafe, nem por que, mas...
Contei-lhe tudo, querida, como deveria ter feito desde o comeo. Era o melhor para todos.
Carin girou em redondo. Rafe se achava na soleira da porta. Usava uma camiseta preta, jeans e umas botas pretas, e nos braos tinha um enorme ramo de rosas amarelas. Estava incrivelmente atraente.
Bom dia, Marta.
Bom dia, Rafe.
Marta sorriu quando ele tomou sua mo e a levou aos lbios. Trocaram um olhar que Carin no foi capaz de interpretar, e que fez que se sentisse como uma intrusa.
E a ti, Carin  se voltou para ela e a observou intensamente. E bom dia a ti tambm, pequena.
Rafe  comeou com cuidado. Viu o exame.
Foi uma afirmao, no uma pergunta. Ela elevou um pouco o queixo.
Sim.
Bem  esboou um leve . -Este sorriso  um dia muito especial para os dois.
Certamente que o . Vou para casa. E seu sobrenome aparece na certido de nascimento de Amy.
Amy?
Sim. Por que te surpreende? No pensaria que seguiria chamando-a de minha pequena  disse com um sorriso forado.
Nossa pequena  corrigiu ele com cortesia. No te ocorreu discutir comigo a escolha de seu nome?
Por que ia fazer-lo? Voc queria ser reconhecido como seu pai e te agradei, mas as demais decises so minhas.
Muito bem, querida  baixou a cabea em um gesto de aceitao. Ser Amy  sorriu, e Carin pde ver o ao atrs desse sorriso. Eu gosto, assim no  nenhum problema. De fato, pode-se considerar uma verso mais curta de um nome que sempre me agradou. Amalia.
Estou segura de que alguma mulher de seu passado ficar encantada com a notcia  Carin sorriu. Com franqueza, no me importa o que voc goste ou no. Seus gostos carecem de interesse para mim.
Carin  Marta pigarreou . Querida, Raphael s diz...
Muito. Ele no vai criar Amy. Eu sim.
Ah, bom, sei que isso  que voc... Quero dizer, isso... Rafe? No... no quer contar algo a Carin? Acredito que... deveria faz-lo.
Carin contemplou a sua me, que se mordia o lbio superior. No era uma mulher que se desconcertasse com facilidade, mas nesse momento o estava.
Me dizer o que?  perguntou com cautela. Rafe tinha sado com a sua e Amy levava seu sobrenome. Que mais poderia querer? Direitos de visita? Possivelmente se tinha posto em contato com um advogado.
Marta  disse Rafe, que em nenhum momento deixou de olhar a Carin , poderia nos deixar a ss, por favor?
Oh. Certamente. Eu somente... Carin? Querida, sei que ainda segue zangada, mas, por favor, trata de pensar no beb. E no muito que Rafe e voc se queriam antes de que acontecesse isto.
Do que ests falando? Ns no...
Marta.
Rafe falou devagar, mas essa nica palavra ressoou na habitao. Carin sentiu um n sbito no estmago, que se intensificou quando sua me esboou um sorriso nervoso e saiu da habitao com Amy nos braos.
Rafe fechou a porta, voltou-se e cruzou os braos, e ela soube que ia acontecer algo terrvel.
O que est passando?  perguntou com voz trmula. Como minha me chegou  assombrosa concluso de que voc e eu compartilhamos uma espcie de... de histria?
Estava angustiada pelos termos de nossa relao  sorriu, embora o gesto nunca chegou a seus olhos . Simplesmente fiz o que pude para mitigar sua preocupao.
Voc e eu no temos uma relao.
Geramos uma filha. Sei que preferiria no reconhecer meu papel nisso, querida, mas  um fato.
Esqueamos isso. S quero saber o que disse a minha me.
Ele se encolheu de ombros, enganchou os dedos polegares nas presilhas dos jeans e devagar avanou para ela. Carin quis retroceder, mas no teve vontade de lhe oferecer essa satisfao.
Disse-lhe que era verdade que nos tnhamos conhecido aquela noite em Espada  estendeu a mo e lhe acariciou a bochecha. Ela tratou de apartar-se, mas ele deslizou os dedos para seu cabelo . E depois acrescentei alguns detalhes, para fazer que todo o resto fosse mais aceitvel.
Que detalhes?  ao sentir a mo suave sobre sua pele e a gentileza dos dedos ao pente-la, invadiram-na as lembranas. Aquela noite a havia tocado dessa maneira. Com suavidade ao princpio, depois com paixo e nsia.... Que detalhes?  repetiu, dando o passo para trs que se prometeu no dar . Deixa de fazer isso.
Ele sorriu e cortou a distncia que os separava. As pernas de Carin se chocaram com a parte traseira da cama; achava-se presa.
Eu gosto de te tocar  murmurou. Inclinou a cabea e inalou sua fragrncia. Todos estes meses recordei quo agradvel era sentir a suavidade de sua pele sob minhas mos e boca.
Carin tambm o recordava, mas nunca o ia reconhecer ante ele. Nunca.
Responde a minha pergunta. O que contou a Marta?
Disse-lhe que nos conhecemos aquela noite em Espada  tomou o rosto entre as mos. No o mencionei, mas deixei que pensasse que essa noite compartilhamos a intimidade.
Deixou que... riu com voz apagada. Qualquer um que possa contar de agosto a maio  capaz de deduzi-lo.
O que no podem deduzir, querida,  que depois daquilo nos vimos muitas vezes, em Nova Iorque.
O que?  piscou.
Eu disse...
Ouvi-o, mas  mentira  lhe agarrou as mos e tratou de evitar que introduzisse os dedos em seu cabelo . Nunca voltou a ver, Rafe. Nem sequer me viu aquela manh, em Espada. Tinha-te partido sem dizer uma palavra.
Rafe a soltou, deu um passo para trs e colocou as mos nos bolsos.
Possivelmente notou minha ausncia inclusive antes, quando abriu a porta do banheiro  exps com frieza .  essa sua conduta habitual com seus amantes? Sorriu com expresso desagradvel . No acredito que tratasse assim ao amor de sua vida.
A quem?
A seu Frank. No imagino que interpussesse uma porta entre vocs depois de ter passado uma noite em seus braos.
Frank jamais me fez sentir o bastante vulnervel para querer interpor uma porta, esteve a ponto de dizer, mas era outro reconhecimento que nunca faria a esse homem.
No pode ser to tolo para acreditar que existe comparao entre as coisas que fiz com Frank e as que fiz contigo, verdade?  viu que ele apertava os lbios. Bem, pensou com amargura, tinha-lhe dado justo onde mais lhe doa . E no estamos falando de Frank, mas sim de ti e das tolices que disse a minha me. Pensou que se sentiria melhor se acreditasse que nos tnhamos visto em Nova Iorque? Tive uma filha fora do matrimnio, Rafe. Sei que isso pode no importar a muita gente no mundo no que vivemos, mas...
Importa-me . E a sua famlia. Por isso ofereci uma histria mais aceitvel a sua me.
Muito obrigado  soltou com sarcasmo.  agradvel saber que  atencioso.
Me escute  espetou ele. E presta ateno, para que no existam discrepncias em nossas histrias. Contei-lhe que nos havamos visto muitas vezes, que nos sentamos atrados mas que tnhamos tido uma briga de namorados, antes de saber que estavas grvida, e que nos tnhamos separado.
No sei por que te incomodaste com semelhante mentira. Estou segura de que gostou mais pensar que ramos apaixonados em vez de...
Agradou a todo mundo, ou isso parece  esboou um leve sorriso. Recebemos mensagens de parabns de seus meio-irmos e de Nicholas e Amanda. Sabia que partiram ontem a Paris?
Sim. Amanda passou por aqui e... Parabns? Moveu a cabea confundida . Por que? Minha me lhes contou essa histrio ridcula? No posso acreditar que toda minha famlia a engolisse.
Pois o fizeram  sorriu e apoiou as mos em seus ombros. Possivelmente vem de uma famlia de romnticos que preferem imaginar um matrimnio apoiado no amor e no na necessidade  leu a comoo em seus olhos . Assim , querida. Expliquei a Marta que pretendemos nos casar.
Essas palavras a aturdiram. Casar-se? Com Raphael Alvares? Sabia que ele no falava a srio, que tinha inventado essa histria para aliviar a situao, mas inclusive pensar em algo assim, imaginar-se como sua esposa...
No deveria hav-lo feito!  umedeceu-se os lbios. S vai piorar as coisas.
No estou de acordo.
Agora querer saber quando vamos nos casar.
No lhe perguntar isso  murmurou ele. Devagar lhe desabotoou os dois botes superiores do vestido, e pousou as mos sobre os ombros nus. Ela conteve o flego.
Far-o. No conhece minha me. Perguntar e perguntar e...
No haver necessidade, querida, porque j lhe respondi a pergunta. Voc e eu vamos nos casar hoje.
Carin sentiu que lhe baixava a presso. Enjoou-se; as mos de Rafe se esticaram sobre seus ombros.
Supe-se que  engraado? Porque no . E me desagrada que mentisse a minha me em algo assim. Quando averiguar a verdade...
J conhece a verdade. Vais ser minha esposa.
Definitivamente no  engraado, mas sim ests louco  se separou dele e se abotoou o vestido com dedos trementes . No vou ser nada teu!
Fiz todos os preparativos.
Que tem feito todos ... ?  Carin riu. Ests louco! Acredito que o pavilho psiquitrico est no ltimo andar. Ao sair pergunte  enfermeira...
Acreditas que se trata de uma brincadeira, Carin?  segurou-a pelo brao quando quis passar a seu lado. No . Tirei a licena.
Falava a srio. Estava louco, mas falava a srio. Te acalme, disse-se Carin.
Vais precisar algo mais que uma licena  liberou o brao. Necessita que algum concorde contigo. No pode te casar com uma mulher que se nega a faz-lo. No nos Estados Unidos. Aqui as mulheres no so propriedade de ningum. Minha me lhe poderia ter dito isso.
Sua me  exps com frieza , pensa que isto  maravilhoso. Sabe o feliz que te far esta notcia. E lhe dir que assim foi.
Esquea-o. Lhe direi a verdade. E uma vez que o tenha feito...
Tenho algo mais que nossa licena de matrimnio, querida. Tambm tenho todos os documentos que necessito para levar a minha filha a casa, ao Brasil.
Carin se tinha dirigido para a porta. Paralisou-se, deu meia volta e o olhou.
No te acredito. Essas coisas requerem muito tempo. Meses, inclusive anos...calou. Rafe sustentava uns quantos papis na mo estendida.
D uma olhada. Aqui esto os papis da custdia, e este  seu passaporte. E, por favor, no perca meu tempo me dizendo o que se pode e no se pode fazer nos Estados Unidos. Tenho amigos poderosos. Quando conseguir reunir os documentos que necessita para me deter, minha filha e eu nos encontraremos em territrio brasileiro.
Minha filha  corrigiu com voz tremente.
Nossa filha, se utilizar a cabea e vai fazer a nica coisa inteligente.
No tem direito de me fazer isto  murmurou.
Tenho direito de me ocupar de que minha filha vai ser criada de forma adequada.
Queria que tivesse seu sobrenome. O pus.
Isso no a torna legtima.
Deus meu  Carin riu, te escute! Falas de legitimidade e para consegui-la est disposto a chantagear.
Toma uma deciso, por favor  olhou o relgio. O funcionrio que nos casar j nos espera em meu hotel.
Rafe  tremeu ao sentir que o sangue lhe gelava . Rafe, me escute. Quer acesso a minha filha? Pode ter-lo. Concederei-te direitos de visita. Poder ver minha filha...
Nossa filha. Porqu te custa tanto diz-lo?
Nossa filha  tragou a saliva. - Tua e minha. J pensaremos em algo. Um plano...
 muito tarde, Carin  disse com brutalidade. Disse a meu piloto que tivesse o avio preparado ao meio dia.
Seu avio?
 um longo vo at o Brasil, mas no se preocupe, querida. Falei com seu mdico e segui todas suas recomendaes para sua comodidade.
Rafe, ao menos me d tempo para pensar  se deixou cair na cama . Atrasa... atrasa tudo at amanh...
Ao v-la to plida, teve vontade de ceder. Mas ento recordou como o tinha utilizado, como tinha tratado de fingir que ele no tinha nenhuma filha e o corao lhe endureceu.
Quo nico importava era sua pequena.
Estendeu a mo com rosto inexpressivo.
Estamos perdendo tempo. Vem comigo para contar a boa nova a sua me?
Mas... mas meu lar est aqui. Minha vida est aqui.
Sua vida agora est comigo. Em meu pas. Ser a me de Amy, e minha esposa. Uma esposa obediente, que compartilhe minha cama e nunca olhe a outro homem nem quebre seu voto de fidelidade.
Jamais compartilharei sua cama, canalha! Ouve-me? Jamais. Jam...
Rafe a ps de p, a tomou nos braos e a beijou, movendo a boca at que ela suavizou os lbios, separou-os e os colou aos seus.
Querida  sussurrou ele, v como pode ser entre ns?
Ela retrocedeu com a respirao entrecortada e o olhou com os olhos nublados.
O que eu vejo  reps com voz trmula pela angstia e pela profundidade da mentira que ia dizer   que posso fingir que voc  o Frank. Isso  o que quer? Quer que v a sua cama, feche os olhos e imagine que  outro homem o qual se move dentro de mim?
Rafe no pensou, simplesmente reagiu. Jogou a mo para trs e a viu encolher-se mas sem mover-se de seu lugar...
No, no. Baixou a mo ao lado. Nunca tinha batido a uma mulher. Ela no ia reduzir-lo ao tipo de homem que recorria a isso, sem importar quanto o atormentasse.
A menina  o nico que importa. Coloque isso na cabea. Faria tudo pela Amy, e se for inteligente, no te interpor em meu caminho  sem advertncia prvia, a tomou nos braos . Sua me diz que  poltica do hospital que te escolte at a sada quando recebe o alta. Mas eu sou a nica escolta que necessitar ou querer a partir deste momento.



 
Captulo 6

Seis semanas mais tarde, Rafe se achava sobre a alta grama junto a sua pista particular de aterrissagem no sudeste do Brasil, observando como seu avio se elevava no cu.
O jato levava de volta a Nova Iorque o mdico e  enfermeira de Carin. Tinha-os transportado a seu rancho para o exame pos-parto de sua mulher. Ela se tinha negado a ver o especialista que lhe tinha recomendado o mdico dele. Havia dito que preferia voar aos Estados Unidos para que a examinasse seu prprio ginecologista, mas Rafe no era tolo. Suspeitava que teria encontrado uma desculpa para ficar em Nova Iorque, por isso tinha arrumado tudo para que o doutor Ronald fosse a Rio do Ouro.
Sua mulher se encontra bem  lhe acabava de dizer o doutor . Se recuperou por completo. A vida pode voltar a normalidade.
O avio ganhou altitude e se dirigiu para as montanhas que separavam a interminvel pradaria do oceano. Esperou at que tivesse se perido de vista, em seguida esporeou ao cavalo para retornar  casa. Quando desmontou, um dos homens se aproximou para se ocupar do animal. Agradeceu-lhe, tirou-se o p dos jeans e atravessou o ptio para ir at seu escritrio.
O interior da casa estava fresco, graas aos tetos altos e aos ventiladores que projetavam sombras suaves sobre as paredes cor de creme. Apartou a poltrona da mesa do escritrio, sentou-se, acendeu o computador e comeou a repassar os registros das ltimas seis semanas.
Rio do Ouro ia bem, tal como acontecia desde que comprara o rancho doze anos atrs. O gado engordava e tinha alguns dos melhores puro sangues do mundo. E fora o rancho, os diversos interesses que mantinha em So Paulo e Rio do Janeiro tinham um xito que ele jamais teria imaginado.
O que tocas se converte em ouro  lhe havia dito Claudia uma vez.
Quase uma hora mais tarde, guardou os fichrios e apagou o computador. Girou a poltrona para ficar de rosto virado para a porta corrida que conduziam ao ptio, juntou as mos atrs da cabea e deixou que seus pensamentos vagassem pelo longo caminho que tinha percorrido para chegar at esse momento e lugar.
s vezes nem ele podia acreditar. Tinha estado a ponto de contar a Carin na noite em que a tinha trazido at ali.
Onde estamos?  tinha murmurado ela, a voz rouca pelo sono ao mover-se em seus braos.
A enfermeira que tinha contratado para que os acompanhasse ao Brasil abriu a maleta.
Sua mulher est inquieta  havia dito . A acalmarei com um sedativo.
Minha mulher, tinha pensado Rafe.
No  cortou ao ver que tirava uma seringa de injeo hipodrmica , no necessita disso.
Carin lhe tinha rodeado o pescoo com os braos, tranqilizando-se, assim como na noite em que se conheceram. Ele a tinha grudado a seu peito, no com desejo, mas com um intenso sentido de proteo.
Sua mulher no necessitava de um sedativo. Precisava sentir os braos de um homem a seu redor.
Seus braos.
A tinha tido dessa maneira durante horas. No final ele tambm tinha adormecido, com o rosto colado ao cheiroso cabelo de Carin, o corpo quente com o calor dela. E tinha sonhado.
Tinha sonhado que ela lhe sorria quando a colocava pela soleira da casa; que se aproximava na escurido, com um longo vestido branco de gaze e que colava a boca aberta  sua; que despertava em seus braos para lhe dizer quo feliz era ao estar em casa com ele, no lugar que Rafe tinha construdo com suas prprias mos.
E ento tinha despertado para encontrar Carin movendo-se em seus braos enquanto o avio aterrissava.
Onde estamos?  tinha perguntado ela, com um tom que dava a entender que bem a poderia ter levado  boca do inferno.
Rafe se levantou da poltrona e foi at as portas do ptio.
Sabia que ela odiava estar ali. No o havia dito, embora rara vez lhe dizia algo. No obstante, percebia o que lhe inspirava Rio do Ouro. Estava em seus olhos e no modo em que se movia pela casa. Embora tampouco tinha esperado que adorasse. Tinha-a levado ali contra seus desejo. Desprezava o rancho, a casa...
Desprezava a ele.
No importava. Fazia o que era certo, por sua filha. Quanto ao rancho, por que teria que se importar o que Carin pensasse? lhe encantava. Com isso bastava. Sempre tinha gostado desse lugar, inclusive antes de t-lo visto. Essa terra tinha formado parte dele, de seu sonho, desde que tinha se recordava.
Tinha crescido com a descrio que sua me fazia do rancho quando o deitava. Em todo caso, com a viso que ela tinha, porque tampouco o tinha visto. Sua me tinha sido bailarina em um clube noturno de Rio quando conheceu a seu pai, e embora Eduardo da Silva jamais se dignou a lev-la a esse lar, o havia descrito.
E ela o havia descrito a seu filho, inclusive muito depois de que da Silva tivesse partido, inclusive quando j no era mais que uma lembrana. Tinha falado a Rafe da casa grande, dos edifcios anexos, da interminvel pradaria e das escarpadas montanhas.
Quando Rafe tinha doze anos, sua me morreu. De pobreza, de desespero, pelo que acontece com as mulheres que perdem a juventude e a beleza e no resta nada que as sustente.
At os quatorze anos viveu nas ruas do que conseguia sua inteligncia. Uma manh, ao despertar com o pontap de um policial, com frio e faminto, mas principalmente com raiva de sua me que tinha morrido e o tinha abandonado e do o pai que jamais o tinha reconhecido, tinha decidido tomar seu destino em suas prprias mos.
No sabia como tinha podido ser to ingnuo. Fraco, sujo, escondendo seu medo sob uma arrogncia adquirida das ruas, tinha partido para o paraso que sua me lhe havia descrito, e em busca do pai que jamais tinha visto.
Tinha demorado semanas em abranger a distncia que havia entre Rio de Janeiro e as pradarias e montanhas do Rio Grande Do Sul. E  medida que passavam os quilmetros, no tinha deixado de perguntar-se por que fazia isso.
Tinha estado seguro de conhecer a resposta. Ia enfrentar-se ao homem que era seu pai.
Abriu as portas e um calor vespertino o envolveu; saiu ao exterior, fechou as portas e se dirigiu devagar para os corrimes de ferro que circundavam o ptio.
No recordava ter tido um plano que fosse alm disso. Amaldioar a Eduardo da Silva? Lhe dizer que a mulher que uma vez tinha afirmado amar estava morta? Lhe pegar at que suplicasse misericrdia?
Apoiou uma bota sobre o corrimo inferior. Ao final, no tinha feito nada disso. A longa viagem terminou em um rancho em estado de runa, onde s se viam umas poucas vacas ossudas e uns cavalos cansados e terra seca. As estruturas a ponto de desmoronar-se, uma casa com buracos no teto... e um velho doente, moribundo e penoso.
Foi embora poucas horas depois.
Oito anos mais tarde retornou. Nesses anos tinha vivido uma vida inteira, aprendendo a ler e escrever, a pensar com a cabea e no com o corao e os punhos. E o melhor de tudo, era rico, tinha os bolsos cheios com o ouro que tinha encontrado em um rio escondido nas interior da selva.
E Rio do Ouro, em situao ainda mais penosa que antes, estava a venda.
Rafe vendeu seu ouro, colocou a metade do dinheiro em investimentos nas que ningum acreditava e dedicou o resto  compra do rancho. At esse dia, ainda podia recordar a expresso matreira do agente que o tinha vendido.
Fez uma compra excelente, Senhor  havia dito, mesmo que seu sorriso indicasse que Rafe era um tolo.
Acredito que sim  tinha respondido Rafe com cortesia, convencido disso.
Ento comeou a procurar homens que no temessem o trabalho duro. Juntos tinham derrubado o que restava da casa de Da Silva e construdo uma nova. No era uma fortaleza escura de estilo espanhol como a de seu pai, mas uma casa erguida com vidro e ladrilhos, aberta ao sol, ao vento e  beleza da terra.
Construram estbulos e celeiros e levantaram cercas.
Queimaram a erva daninha. E Rafe trabalhou to duramente como seus homens, inclusive depois de que os investimentos que tinham provocado a mofa de outros se converteram no primeiro de seus milhes.
Passou o tempo. Moveu-se em crculos de riqueza e poder e comeou a pensar no futuro, em legar tudo o que tinha construdo. Quando conheceu Claudia, as coisas pareceram encaixar em seu lugar. Era encantadora e bela e pertencia a uma antiga famlia do Brasil. Deu por certo que ela compreendia a importncia da continuidade, mas s entendia de festas, de jias e de si mesma.
Soube que no eram feitos um para o outro, por isso ps fim a seu compromisso, jurando que teria mais cuidado da prxima vez.
Escolheria a uma mulher que entesourasse o mundo que ele tinha levantado.
Ergueu-se e olhou em direo s montanhas.
Mas tinha cometido um erro e nesse momento tinha uma esposa inclusive menos apropriada do que teria sido Claudia, e que o desprezava junto com a vida que ele lhe tinha dado.
Mas tinha uma filha. Isso era o que importava. Algum dia, tudo o que tinha construdo seria de Amalia, tal como gostava de pensar nela, o mesmo nome da mulher que lhe tinha dado vida. Eram surpreendentes os jogos do destino.
Sim, tinha uma filha a qual adorava e uma mulher que lhe era to desconhecida como na noite que a levou a cama, quase um ano atrs. Depois de seis semanas de casamento, o nico que sabia de Carin era que gostava de visitar os cavalos e que odiava v-lo. Algo que lhe demonstrava sem muita sutileza.
Nunca sorria quando falava com ele.
Encontra-te bem?  perguntaria Rafe.
Sim  responderia ela.
Lhe agradaram as coisas que encomendei para a pequena?
Sim.
Necessita de algo? Quer que te leve a So Paulo ou ao Rio para que possa ir s compras?
A resposta sempre era uma negativa.
Na noite em que a tinha levado a seu lar, tinha pensado em subi-la at seu dormitrio, sua cama... no para lhe fazer amor, j que no era um monstro, sem importar o que ela considerasse. Sabia que necessitava de tempo para sanar dos rigores do parto, mas o lugar de uma esposa estava na cama do marido.
Casar-se pelo bem da menina, era o correto, mas s um tolo viveria com uma mulher formosa sem desfrut-la.
Mas ento tinha contemplado o rosto de Carin. Olhava-o como se fosse um monstro, seus olhos lagos gelados de escurido contra a plida transparncia de sua pele, e havia sentido que uma onda de auto desprezo o percorria.
Sem dizer uma palavra, tinha-a levado a uma das sutes de convidados, lugar onde nas ltimas semanas ela tinha feito sua vida.
Sabia que bastaria lhe ordenar que se mudasse a seus alojamentos para que no tivesse mais opo que obedecer. Mas no pensava em fazer-lo. Era o que ela esperava dele, motivo pelo qual no a satisfaria.
De fato, j no queria a sua esposa em sua cama.
Era brasileiro; vivia em um pas no qual os homens no tinham que desculpar-se por suas necessidades. As amantes eram normais, em particular entre os de sua classe e riqueza. J as tinha tido antes. No demoraria para ter outra. A simples verdade era que j no desejava Carin sexualmente. No tinha interesse para ele, salvo como me de sua filha.
Tinha estado a ponto de revelar ao mdico quando este lhe tinha informado que Carin se encontrava bem.
Disse a ela que podia reatar as relaes ntimas com voc.
Compreendo  tinha respondido Rafe.
Abriu a porta do ptio, fechou-a a suas costas e comeou a caminhar para os estbulos.
Quo nico desejava nesse momento era que ela assumisse o papel que lhe correspondia como sua esposa. Essa noite lhe diria que j no podia adiar-lo. Jantaria quando ele o fizesse, presidiria a mesa de seu marido, seria a anfitri de seus convidados e iria de brao dado nos atos pblicos.
Tambm lhe informaria que no necessitava que dormisse em sua cama. Devia apagar isso de sua cabea.
Possivelmente recorresse a Claudia para mitigar suas necessidades sexuais. Havia-se comovido ao inteirar-se de que estava casado... ele mesmo o havia dito na semana anterior quando ela ligou, embora sem lhe proporcionar os detalhes.
Sentirei tua falta, querido  havia dito ela, como se ainda mantivessem uma relao ntima...
Apesar de todos seus defeitos, Claudia nunca o tinha decepcionado na cama. Tambm tinha deixado bem claro que adoraria voltar a estar nela outra vez, se ele o pedisse. Nunca o tinha feito, mas nesse momento...
Por que no?, pensou ao chegar  cavalaria do semental que ele tinha comprado de Jonas Baron. Claudia era formosa e no precisaria fingir que ele era outro com o fim de gemer de xtase em seus braos.
Assobiou com suavidade ao animal. O cavalo ergueu as orelhas e o olhou. Mostrou-se difcil quando o levou ao rancho. Teimoso, quase selvagem, mas com pacincia tinha modificado isso. Nesse momento ia cada vez que o chamava. Um simples treinamento tinha operado maravilhas. O bom comportamento merecia uma recompensa. O mau comportamento no proporcionava nada.
Acariciou-o atrs das orelhas. As mulheres no eram to diferentes. Podiam aprender, igual aos cavalos.
Carin tambm aprenderia.
Se queria que sua vida continuasse igual a das ltimas semanas, se queria suas prpria habitao, sua intimidade, ento aprenderia a apresentar-se quando a chamasse, a sorrir quando se requeresse, para jantar a sua mesa se tivesse convidados, a manter uma conversa civilizada. Trataria-o com respeito em privado, com deferncia em pblico e o pegaria no brao se as circunstncia o exigissem. Diria as coisas adequadas e fingiria ser feliz.
Se no se comportasse, havia formas punir-la.
Podia despedir a bab que falava ingls, dizer s moos do estbulo que sua mulher no tinha permisso para aproximar-se dos cavalos, exigir que abandonasse a sute em que dormia, sozinha, e obrig-la a compartilhar seu dormitrio, suas comidas, sua cama...
Sua cama.
Retirou-se da cerca.
No que estava pensando? No queria Carin em sua cama. E embora assim fosse, que no o era, desde quando esse era um mtodo que empregaria para conseguir t-la entre os lenis?
Ouviu o rudo de uns cascos. Observou com incredulidade enquanto sua mulher passava sobre um cavalo to enorme que a fazia parecer uma an. Ria com o cabelo ao vento, inclinada sobre o pescoo do animal enquanto atravessava o ptio estreito que separava as duas asas dos estbulos. O cavalo relinchou e obedeceu quando ela puxou as rdeas, embora ainda danava impaciente enquanto Rafe corria para ele.
Ests louca?  gritou, agarrando as bridas . Faz uma idia do poder que tem este animal?  o cavalo relinchou nervoso e tratou de mover a cabea. Rafe agarrou-o com mais fora . Desa j!
O sorriso de sua mulher desapareceu ao mesmo tempo que o olhava com uns olhos cheios de desprezo.
No te atreva a falar comigo dessa maneira.
Falarei como gosto, maldita seja. Desa desse cavalo!
Carin passou uma perna por cima da sela. Um dos moos tinha sado correndo ao ptio. Rafe entregou as rdeas e estendeu os braos para sua mulher. Ela tentou apartar as mos, mas no lhe prestou ateno e a desceu da sela. Carin chutou com fora enquanto a descia ao cho; uma bota deu justo debaixo do joelho de Rafe, que grunhiu de dor mas no a soltou. Segurou-lhe ambas os pulsos com uma mo.
Quem te selou este cavalo?
No  teu assunto.
Ricardo?  olhou ao moo, intimidado junto ao animal  Foi voc?  o jovem assentiu consternado. Recolhe suas coisas  rugiu Rafe. Diga ao Joo que te pague. Ests despedido!
No  culpa do moo  soltou Carin enquanto tratava de soltar-se. Eu escolhi o animal. Ordenei-lhe que o selasse.
Devia saber que no tinha que fazer tudo o que lhe pedisse. Eu sou seu patro, no voc.
O que voc   um selvagem e um bruto. Odeio-te!
No  nada novo, nem me inquieta  sorriu  Me odeie tudo o que quisser, mas isso no mudar a realidade. Sou seu marido. Se desejas montar, primeiro deve solicitar minha permisso  sabia que soava como um monstro, mas no se importava. Era sua esposa e o havia desobedecido e deixado como um tolo. Poderia ter-se matado. Respirou fundo . Ricardo!
A moo o olhou.
Sim, Senhor?
No ests despedido. Leve este animal e acalma-o. E recorda, eu sou o nico que d ordens aqui.
Ca... canalha  vaiou Carin. Miservel filho de...
Rafe se fartou. Murmurou uma obscenidade, elevou a sua esposa e a passou ao ombro. Carin gritou enfurecida.
Desa-me!  com fora lhe golpeou as costas . Maldita seja, Rafe! Desa-me!
Ele se dirigiu para a casa. A ira o fazia respirar de maneira entrecortado, no o peso de sua mulher, a qual era leve. Muito leve. Perguntou-se se no estaria comendo bem. Embora o mdico tivesse lhe dito que se encontrava bem.
Ainda no te recuperaste para cavalgar  anunciou ao abrir a porta enorme, entrar no vestbulo e subir ao primeiro andar . O mdico no lhe disse isso?
Especificamente lhe perguntei se podia montar  ofegou Carin enquanto Rafe abria com o p a porta do dormitrio dela . Disse que podia.
O homem  um idiota. Voc  idiota. Ou no lhe contou que pensava montar em um elefante?
Pelo amor do cu... Uuuff!  ficou sem ar nos pulmes quando Rafe a soltou na cama. Armas uma montanha de um gro de areia. O mdico disse que j me encontrava recuperada. Eu... abriu muito os olhos . O que acreditas que ests fazendo?
O que te parece?  respondeu com frieza ao tirar a roupa do armrio e atir-la ao cho. Elena? Joo! Onde diabos est todo mundo?
O rugido reverbou pela casa. A governanta entrou a toda velocidade na habitao. Olhou a Carin, sentada com as costas apoiada na cabeceira, depois apartou a vista.
Sim, Senhor Raphael?
Rafe se girou para ela. Parecia selvagem e furioso.
Procura o Joo. Que te ajude a mudar todas as coisas de minha esposa para meus aposentos.
No  se apressou a dizer Carin . Elena. Deixa minhas coisas onde esto.
No entendeste o que eu disse antes, Carin?  dirigiu-se ao p da cama e a olhou com olhos cintilantes . Aqui o chefe sou eu  se destacou com o dedo polegar . Eu estabeleo as regras.  minha esposa, e me cansei dos teus jogos. Elena!
Sim, Senhor.
As coisas da Senhora estaro transladadas at a hora do jantar. Entendido?  a governanta olhou a Carin e depois assentiu . E preparar um jantar apropriado para uma pequena festa, para esta noite.
Oh,  isso  Carin se sentou erguida e cruzou os braos . Quer celebrar minha humilhao com uma festa. O que vais fazer comigo enquanto voc e seus amigos riem? Me prender a uma parede?
Seis pessoas  continuou ele, relevando sua grosseria . A Senhora, eu... fez uma pausa. J decidirei os outros quatro  se voltou para Carin com um sorriso frio nos lbios . No est de acordo, esposa?
No que estou de acordo  em que perdeste a cabea  baixou os ps ao cho . No penso em comparecer a nenhum jantar, no a menos que voc seja o prato principal. Quer celebrar uma festa? Perfeito. Elena?
Sim, Senhora?
Eu jantarei aqui, em minha habitao. De fato, em meu saloncinho  falou com a tremente Elena, mas em nenhum momento apartou a vista de Rafe . Algo leve, por favor. Uma salada, caf com gelo.
Presunto com melo  indicou Rafe. Depois camares com esse molho que eu tanto gosto. Diga ao Joo que suba umas garrafas desse vinho branco francs da adega  sorriu a  Carin. As taas s oito. O que te parece? E o jantar s nove, no ptio.
O jantar no inferno, filho de...
Obrigado, Elena. Isso  tudo.
A governanta escapou da habitao. Carin olhou furiosa a Rafe.
Eu no gosto de camares. Odeio o vinho branco. Jamais como melo. E qualquer convidado teu automaticamente ser meu inimigo.
Terminaste?  ele cruzou os braos.
No momento.
Nesse caso, sugiro-te que prestes ateno. Eu no gosto de me repetir. Dar-te um banho e te perfumar. Por-te algo longo e feminino. E te reunir comigo s oito, para que possamos receber juntos a nossos convidados.  hora de que lhe apresente a meus amigos.
No estou absolutamente interessada em conhec-los.
Durante a noite  continuou, como se no o tivesse interrompido , sorrir-me e dir o tipo de coisas que uma mulher diz a seu marido.
No me ouviste?  elevou o queixo. No quero conhecer seus amigos.
Far o que te diga.
No! Pode ser que tivesse o poder para me obrigar a me casar, para me trazer para este... este horrvel rinco da terra onde brinca de  ser imperador, mas no pode me obrigar a fingir que eu gosto disso  se levantou . No sou sua propriedade. No sou... O que te resulta to condenadamente engraado?
Aproximou-se dela com um sorriso no rosto. Pegou-a pelos ombros e adiantou seu corpo rgido.
foi uma excelente atuao, querida. Excelente, de verdade. Mas te equivoca. Posso fazer o que me agrade contigo. s minha esposa. Minha propriedade.
Tolices.
Mas a voz lhe tremeu. Bem, pensou ele. J  hora de que tenha medo de mim. Eram muitas semanas em que a tinha observado mover-se por seu lar como se fosse um hotel e ele um criado.
Tenta me assustar, Rafe, mas no sou tola. Estamos em um pas civilizado. Tem leis.
Sim, mas muito distintas das de seu pas. Poderia tomar-la  fora, querida, mas no o farei.
Ento... ento... por que...?
Um marido e uma mulher no deveriam dormir separados.
No tenho inteno de dormir contigo, Rafe.
Esta noite dormir em meus braos, embora seja quo nico faa. Mas te prometo que haver mais, e ser porque voc vir por sua prpria vontade  ela emitiu uma risada vacilante . Te resulta divertido?
Assombra-me que possas pensar...
Ele baixou a cabea e lhe deu um beijo na boca at que sentiu os primeiros tremores que a percorreram e ouviu o suave gemido sussurrado que ela emitiu. Ento lhe elevou o rosto e introduziu a ponta da lngua entre seus lbios, lhe insistindo em abri-los. Aguardou at que ela suspirou e lhe deu acesso  melosa calidez de sua boca.
Depois, apesar do muito que o lamentava, soltou-a e deu um passo para trs.
Disse que no tnhamos nada em comum, querida, mas temos. No  o que ambos desejaramos, mas  mais do que muita gente tem  a olhou, depois lhe acariciou a bochecha, o pescoo, o seio, e ela respirou com gesto trmulo . Me suplicar que a tome, Carin. Prometo-lhe isso.
No  murmurou. Lhe juro isso, Rafe. Esperar uma eternidade antes de que isso acontea.
Ele sorriu, baixou a cabea e a beijou na veia que lhe palpitava no pescoo.
At esta noite, minha mulher  murmurou.
Necessitou de todo seu controle para deix-la ali e atravessar a porta.



 
Captulo 7

Carin estava de p no centro de seu dormitrio e via como Elena e Joo o esvaziavam de suas ltimas posses.
Ao princpio tinha tentado det-los.
No o faam. No tm que obedecer as ordens de um brbaro.
O rosto de Elena estava vermelho. Lanou-lhe um par de olhares de desculpa, como se desse a entender que lamentava o papel que lhe tocava cumprir.
Carin se sentou em uma cadeira e cruzou os braos. Nunca se havia sentido mais impotente, ou zangada, nem sequer quando havia se dado conta de que s havia sido a aventura de uma noite para o homem que nesse momento era seu marido.
No final no ficou nenhum vestgio de que alguma vez tivesse ocupado esse quarto que tinha chegado a ser seu santurio.
Joo se achava na soleira da porta, com o rosto inexpressivo e os braos nos lados, como se esperasse a seguinte ordem. Carin ficou de p, colocou-se o cabelo atrs das orelhas e se ergueu tanto como foi capaz; por dentro tremia dominada pela fria.
V  disse. Saia... daqui.
O capataz fez uma reverncia rgida e obedeceu. Elena ficou uns segundos mais; dava a impresso de que queria dizer algo mais.
Est bem  indicou Carin cansada. De verdade.
 um bom homem  murmurou. Tem um...procurou a palavra, em seguida bateu no peito .  amvel aqui  lhe sorriu com gesto tmido e partiu.
Pelo que sabia, possivelmente algum tambm dissesse que o imperador Calgula era um bom homem com um corao amvel. Sentiu vontade de rir, mas compreendeu que se nesse momento manifestasse alguma emoo, no seria capaz de cont-la.
Dirigiu-se  janela e contemplou a plancie e as montanhas distantes.
Pensou que possivelmente estava casada com um louco. De que outra maneira podia explicar-se que fosse to terno em ocasies, como quando a teve nos braos ao chegar ali, e to indiferente em outras? Mas estava presa nessa casa, nesse matrimnio, at que de algum modo pudesse forar Rafe a ver que a vida que tinha planejado no podia funcionar, que no podia esperar criar uma famlia feliz unindo aos membros com correntes.
Deu meia volta e saiu do dormitrio.
O relgio de porcelana francesa do corredor superior bateu seis horas. Ele havia dito que as taas seriam s oito horas, e o jantar s nove. Tinha que banhar-se, colocar algo longo e feminino, descer para receber aos convidados e comportar-se como uma esposa. E em pouco tempo esperava que se arrastasse at ele para que a acariciasse como se fosse sua gata favorita.
Em seus sonhos, Senhor  disse com frieza.
As habitaes dele se achavam no outro extremo da casa. Ao chegar  porta o corao palpitava com fora. Respirou fundo e abriu. Ante ela apareceu uma sala vazia.
Fechou a porta e se apoiou contra ela. Te tranqilize, disse-se ao dirigir-se para a soleira que sabia que conduziria ao dormitrio.
Havia uma cama grande com dossel coberta com um edredom branco e cheia de almofadas. Em frente havia uma parede de vidro que dava a um terrao fechado com muitas plantas.
A sua esquerda havia uma parede com espelhos. Assim como nos dormitrios dos convidados na casa dos Baron, sabia que atrs haveria um closet que levaria a um banheiro.
Abriu as portas. A roupa de Rafe estava pendurada em um compartimento  esquerda... e ao outro lado viu que estavam colocadas suas coisas.
Fechou a porta ao sentir uma inquietante intimidade ao ver suas coisas juntas.
Era o closet de Rafe, seu marido. Pra, murmurou. Barba Azul tambm tinha sido o marido de algum. Isso no convertia a ningum em boa pessoa. De fato, Rafe era um ditador de corao frio, que acreditava que podia ser seu dono.
Mas sem importar o que ele pudesse acreditar, jamais a possuiria.
Respirou fundo e voltou a abrir a porta. Tinha que tomar um banho. Essa noite ele queria exibi-la ante seus amigos. Sabia que tipo de mulher esperariam. A uma esposa perfeitamente penteada e vestida, dcil e educada. Uma gata sorridente  espera de ser mimada e de passar as noites na cama de seu dono.
As gatas tm garras, Senhor  disse com as mos nos quadris, como se o tivesse frente a ela . Parece que o esqueceste.
Com impacincia, inspecionou os vestidos. Qualquer um teria sido perfeito para seu suposto senhor, mas por esse motivo no quis nenhum... ficou paralisada ao encontrar um de seda de uma cor rosa plido e outro prateado. No eram seus.
Conteve o flego ao dar-se conta de que eram as coisas que Rafe lhe tinha comprado. Tinha esquecido que nas primeiras semanas em Rio do Ouro no tinham parado de chegar caixas e pacotes com assombrosa regularidade, todos com seu nome. Mas tinha deixado de os abrir assim que compreendeu o que continham.
No quero nada do que meu marido me comprar - havia dito a Elena. D de presente tudo. Queima-o. Faz o que quiser, entendido?
Era evidente que Elena no lhe tinha levado em conta, e tinha guardado tudo no closet de Rafe. Pela primeira vez, Carin via o que ele lhe tinha comprado.
Eram coisas formosas. Sedas suaves. Cetins iridescentes. Cachemiras delicadas.
Tocou o vestido rosado, depois a reluzente pea prateada. Tanto as cores como os cortes eram perfeitos. Se tivesse sido Cinderela com uma fortuna ao seu dispor, ela mesma os teria escolhido. Em particular o vestido prateado.
Tirou-o do cabide e o colou ao corpo, olhou-se no espelho e suspirou de prazer. Era delicioso, simples e de decote pronunciado, com umas tiras finas e uma saia longa e rodeada.
Entreabriu as plpebras. Imaginou-se saindo do dormitrio e descendo devagar as escadas para ir junto de Rafe. Os olhos deste se nublariam ao v-la; estenderia a mo e ela a aceitaria, e entrelaaria os dedos com os dele.
Ela sorriria e elevaria o rosto para receber seu beijo, e ao aprofund-lo, ele a elevaria nos braos e a levaria de volta escada acima, a seu dormitrio, a sua cama...
No!
Atirou o vestido ao cho e colocou em um canto do armrio toda a roupa que Rafe lhe tinha comprado...
E encontrou o que ia colocar essa noite.
O pesadelo verde lima que se supunha que ia colocar para o casamento de Frank e ris.
Esperou sentir algo, qualquer coisa, uma pontada de dor ou uma corrente de ira, mas no sentiu nada. Era como se tudo isso tivesse acontecido a outra pessoa, no a ela.
Nunca tinha chegado a entregar-lo  outra dama de honra como ris lhe tinha pedido, ela o tinha pago e ela ia destro-lo. Mas o tinha esquecido e a o tinha, guardado pela Marta ou por quem quer que tivesse ido esvaziar seu apartamento para lhe mandar suas coisas. Era o tpico vestido de dama de honra objeto de brincadeiras por parte de todo o mundo.
De fato, era pior que isso. Simplesmente, era um horror. Era a vestimenta mais feia que j tinha tido.
Tirou-o do cabide, o colou ao corpo e se olhou no espelho. A cor era espantosa, piorado por uns babados dourados no pescoo e na barra pelo brilho desmedido do tecido. Tinha uns sapatos combinando, feios e de salto baixo.
ris tinha ficado encantada. A tinha levado arrastada  loja do centro comercial, babando a respeito dos vestidos perfeitos que tinha encontrado para suas damas de honra.
Rafe lhe tinha pedido algo longo e feminino para poder exibir de forma apropriada sua conquista.
Sorriu. O vestido era longo, e a ris tinha parecido feminino.
No pea algo a menos que esteja seguro do que vais receber, Senhor  sussurrou.
Deixou-o sobre a cama, ps os sapatos no tapete, fechou a porta e comeou a preparar sua estria como a senhora Alvares.
Para um homem que tinha um ego enorme, ia ser uma noite muito longa.
s sete horas, Carin saiu da ducha. Envolveu-se em uma toalha grande e descala atravessou a amaciado tapete do dormitrio, mas se deteve o ouvir que algum tentava abrir a porta. Por sorte tinha tido a precauo de trancar a porta.
Carin?
Sim?  reps, com a esperana de soar indiferente.
Abre a porta.
Nem por favor, nem seria to amvel. Uma ordem. Ergueu os ombros, apartou-se o cabelo molhado do rosto e olhou a porta com olhos cintilantes.
No.
Silncio.
Nossos convidados no demoraro para chegar.
Seus convidados, no meus.
Maldita seja, Carin, abre a porta!
Sinto muito  sorriu encantada. Estou me vestindo.  o que me disse que tinha que fazer, ou o esqueceste?
No te disse que me isolasse de meus prprios aposentos  disse em voz baixa. Abre a porta imediatamente.
A madeira pareceu vibrar, sob o sbito peso de seu punho. Carin retrocedeu um passo. Imaginou que a madeira se estilhaava, que Rafe irrompia na habitao e que lhe tirava a toalha das mos...
No! No penso abrir, Rafe, at que esteja pronta para descer.
Transcorreu uma eternidade at que ele voltou a falar, nessa ocasio em um sussurro parecido a um ronronar.
Ests brincando com fogo, querida. Quero te recordar que os que o fazem correm o risco de queimar-se.
E eu que ser melhor que procure outro lugar no qual te preparar para a noite.
Poderia derrubar esta porta.
Sim  a voz lhe tremeu. Sim, poderia, e ento ambos saberamos que s um brbaro  Carin o ouviu suspirar.
Desejas te comportar como uma criana malcriada? Bem... mas s por esta noite. No voltarei a permitir-lo, minha mulher. Entendeste-o?
Sim, entendi-o.
Sentou-se na cama para ouvir os passos que se afastavam. Quando Elena bateu na porta momentos mais tarde, seguia tremendo. Abriu e a governanta se desculpou enquanto percorria a habitao recolhendo coisas de Rafe. Um palit branco de gala. Calas pretas. Uma camisa de seda preta. Essa noite seu marido ia estar esplndido...
Mas no  meu marido, recordou-se com rapidez. Era o inimigo.
Elena fechou a gaveta da cmoda.
Senhora  disse com cortesia... e se paralisou. Contemplou o espantoso vestido verde lima que havia sobre a cama, e depois olhou a Carin com expresso comovida.
Sei  suspirou Carin, mas ele o merece.
s sete e meia, olhava-se no espelho.
Estava horrvel.
Alguns vestidos melhoravam quando postos. Esse no. Em todo caso, parecia mais feio. Desde que estava no rancho, sua pele tinha adquirido uma suave tonalidade dourada. O tecido verde brilhante convertia o bronzeado em um amarelo doentio.
Mordeu-se o lbio, ficou de perfil e contemplou seu reflexo no espelho.
Tinha ganho peso depois de ter Amy. No gostava de reconhec-lo, mas muitas vezes ao vestir-se perguntava se Rafe recordaria como tinha sido seu corpo e o que pensaria nesse momento de seus seios mais cheios e quadris mais arredondados. No  que lhe importasse. E tampouco lhe daria a oportunidade de v-los... mas despertava sua curiosidade.
Soltou o ar. Ganhar peso era um eufemismo. Com esse vestido mais parecia uma salsicha.
De verdade queria que Rafe a visse dessa maneira?
Seu marido era to atraente. To masculino. Podia ter  mulher que quisesse, e a tinha escolhido a ela...
Ficou rgida.
No era verdade. No a tinha escolhido. As circunstncias tinham determinado a escolha. Se no tivesse ficado grvida, se ele no tivesse uma louca concepo de moralidade latina, jamais teria voltada  a ver-la.
E isso doa. Nas escuras horas da noite, permanecia acordada na cama, pensando no que poderia ter sido se Rafe tivesse ido v-la, por ela, porque a desejava. Porque a necessitava, amava-a...
Soltou um gemido de desespero. Separou-se do espelho. Em que diabos estava pensando? Rafe no a necessitava nem a amava, e ela tampouco a ele. S queria possui-la, mas depois dessa noite, aprenderia uma lio.
Maquiou-se, depois se pintou os lbios com um batom que odiava e colocou tanto rmel nos clios que pareciam as de uma vaca.
Retrocedeu e se avaliou.
Preciosa  murmurou; e antes de que lhe falhasse a coragem, apagou as luzes, abriu a porta e saiu ao corredor. At em cima chegava o som de uma msica suave e o ronronar de umas vozes.
Os convidados de Rafe tinham chegado.
Perguntou-se a quem teria convidado. As risadas voltaram a subir at ela, uma mescla de profundos tons masculinos e delicados sons femininos. Voltou a experimentar a dvida de que seu plano para humilhar a Rafe fosse realmente uma boa idia.
No era muito tarde para limpar a cara, pentear-se, tirar o espantoso vestido e colocar algo sedoso e suave que o fizesse sorrir de prazer ao v-la, olh-la com desejo como tinha feito naquela primeira noite...
Deteve-se, tragou saliva e respirou fundo para acalmar-se. Aquela noite pertencia  lembrana. Rafe a tinha deixado grvida, lhe tinha dado uma filha e esse era o nico motivo pelo qual tinha retornado, para for-la a um matrimnio que ela no queria, um matrimnio que ele considerava que lhe dava direito a transform-la em uma escrava.
Entrecerrou os olhos e se dirigiu para as escadas.
No o necessitava, no o amava e certamente no queria seguir casada com ele. Com um pouco de sorte, Rafe tampouco quereria seguir casado com ela.
No depois dessa noite.



Captulo 8

Onde estava Carin?
Rafe bebeu um gole de vinho e olhou o relgio. Eram passada das oito horas e todo mundo tinha chegado... os Sousa, seus vizinhos mais prximos, e Claudia com seu ltimo amante, este tinha comparecido porque esse fim de semana ia ficar na casa de Isabela e Luis.
S faltava sua esposa.
Onde est, querida?  tinha perguntado Claudia assim que entrou.
Se arrumando para seu marido  havia, respondido o cavalheiro que a acompanhava.
Estou segura de que j  bastante formosa. Um homem como Rafe no se conformaria com nada menos  tinha brincado Isabela.
Rafe sabia que era ridculo estar nervoso. Lhe tinha ocorrido a idia do jantar mais por fria que por outra coisa, embora fosse a primeira vez que algum de seus amigos ia conhecer sua mulher.
Sua mulher. S depensar essas palavras lhe provocavam uma sensao estranha.
Apresento-lhes a minha mulher, diria, e Claudia e seu amante, Isabela e Luis, veriam que a mulher com a qual havia se casado era inclusive mais formosa que o que eles tinham imaginado.
Formosa e furiosa com ele. Mas mudaria tudo isso, mais tarde nessa mesma noite. Depois de que os convidados se fossem, beijaria Carin at que a ira se transformasse em paixo e ento, ao fim, faria-a realmente sua esposa...
No consigo imaginar voc casado, querido  comentou Claudia, apoiando a mo em seu brao. Meu Rafe, com uma doce mulher.
Doce?, esteve a ponto de rir.
Claudia suspirou com gesto dramtico.
Oh, bom. Terei que esperar at que te canse dela e volte para mim.
No penso me cansar desta  disse com toda a rapidez que pde exibir. Carin e eu estamos casados, Claudia. Expliquei-lhe isso quando liguei para ti.
Sim, fez isso - lhe alisou a lapela do palit . Est casado e tem uma filha. Com que rapidez trabalha, querido.
Rafe franziu o cenho. Possivelmente no tinha sido uma boa idia convidar a sua ex-noiva. Mas tinha preparado essa festa da noite pro dia. Alm disso, queria que Carin acreditasse quando lhe dizia que j era hora de acabar de fingir que seu casamento era um jogo. Tinha que entrar em sua vida, aceitar seu papel de esposa...
Seu papel na cama com ele.
Teve a imagem dela nua em seus braos. O desejo, agudo e eltrico, fez-lhe ferver o sangue.
Piscou e se obrigou a concentrar-se em Claudia, quem o olhava com as plpebras entreabertas. No deixava de paquerar com ele. Sempre o fazia, sem se importar que seu amante se achasse a menos de trs metros ou que sua esposa estivesse a ponto de reunir-se com eles...
Deus, que idiota fui. Tinha falado a sua ex-noiva sobre sua esposa, mas no a esta de sua antiga noiva. J era muito tarde, assim como tambm era tarde para cancelar esse jantar. Perguntou-se no que tinha estado pensando para realizar tantas mudanas em um dia. Tinha mudado a Carin a seu dormitrio, havia-lhe dito que era hora de ter um casamento de verdade, e nesse momento estava a ponto de apresentar-lhe Claudia.
Apertou a mo em torno da taa de vinho. J estava feito. Ela se comportaria como se esperava de uma esposa. Ficaria formosa, teria uma conduta recatada, falaria quando fosse solicitada e enfeitiaria a seus convidados. E depois, quando ficassem sozinhos, fecharia a porta do dormitrio e lhe mostraria... mostraria-lhe...
Levou a taa aos lbios e a esvaziou.
O que ia mostrar-lhe? Que possua uma aterradora falta de controle quando se tratava dela? Que podia enfurec-lo com um simples olhar? Que nunca tinha deixado de desej-la em seus braos?
Rafe  disse Claudia. Santo cu...em seus lbios se aninhava uma suave gargalhada.
Pare!  vaiou Isabela.
Claudia deixou de rir, mas era muito tarde. Rafe sentiu que lhe arrepiavam os cabelos da nuca. Seus convidados olhavam alm de seu ombro.
O que acontece? perguntou, voltando-se...
Para ver sua mulher vestida como uma piada em uma revista de moda.
encontrava-se no arco de entrada da sala. Ao princpio pensou que estava doente, porque sua pele parecia muito amarela. Depois compreendeu que era a cor do vestido o que lhe dava esse aspecto. Era de um verde to intenso que feria a vista. E ainda por cima brilhava. Se pudesse dizer que um tecido tinha um resplendor radiativo, sem dvida era esse.
E o que eram essas coisas que usava no pescoo e na barra? Babados? Rafe observou horrorizado  mulher que era sua esposa. Jamais a tinha imaginado com babados. Era muito esbelta, muito elegante... ao menos o tinha sido at aquela noite.
E o cabelo. O que tinha feito para converter-lo de seda em palha, para que fosse de um marrom apagado em vez de um chocolate exuberante?
Respirou fundo. Tinha que tratar-se de um sonho mau, ou de uma espantosa piada americana.
Rafe  disse ela com um sorriso.
Levava os lbios pintados de uma tonalidade prpura mortfera; e tinha um dente manchado de batom.
Rafe, por favor, me perdoe. Lamento chegar tarde.
Nem sequer soava como ela mesma, mas sim como uma mescla de Marilyn Monroe e Jessica Rabbit. E por que lhe suplicava perdo? A Carin que ele conhecia jamais suplicaria por nada.
O que tinha acontecido? Tinha despedido com muita rapidez ao mdico, e era evidente que ela necessitava seus servios. No havia uma depresso ps-parto? Sim, a mulher de um amigo a tinha sofrido. Possivelmente essa... essa psicose era uma de suas manifestaes. Seria culpa dele, a teria pressionado muito, assustando-a para que se esforasse em agrad-lo?
Claudia soltou outra risada e Rafe lhe lanou um olhar furioso. Isabela sussurrou algo a seu marido com voz amvel. Menos mal que estava ali. Tinha filhos. Sem dvida saberia como tratar com...
Rafe  murmurou Carin.
Algo no modo em que ela pronunciou seu nome lhe gelou o sangue. Apartou a vista do terrvel vestido, dos espantosos sapatos, da boca prpura, e a olhou aos olhos...
Uma fria acesa estalou em seu interior. Durante um momento, a mente ficou em branco.
Os olhos de sua esposa no irradiavam splica nem estavam chorosos pela depresso. Brilhavam duros como uma pedra com uma malcia fria e penetrante.
Tinha-o feito de propsito.
Teve vontade de mat-la.
Respirou fundo, em seguida olhou em torno da sala. Isabela da Sousa tinha a vista cravada em uma parede. Luis bebia o que restava de usque. O amante de Claudia, como diabos se chamasse, tinha os olhos a ponto de sair-se de rbita pelo assombro. Claudia, ainda de p a seu lado, mostrava entusiasmo pelo que ia acontecer a seguir.
Pois ia decepcionar-la.
Rafe esboou um sorriso, dirigiu-se para Carin e tomou sua mo.
Ah, querida  disse, lhe beijando os dedos . Comeava a me perguntar o que podia estar te demorando, mas agora posso ver que era porque te estava pondo ainda mais deliciosa do que j s as pupilas de Carin se contraram; Rafe sentiu que lhe tremia a mo .Estive falando de ti a nossos convidados  ela entrecerrou os olhos; no era essa a reao que tinha esperado. Bem,, pensou ele, que veja que dois podem jogar mesmo jogo . Vem, querida  colocou a mo de Carin no vo de seu brao e a conduziu para longe de Claudia, para os Da Sousa, deixando o que sem dvida ia ser o melhor momento para o final . Isabela, apresento a minha Carin. Minha esposa.
 um prazer te conhecer, querida  Isabela pigarreou.
E este  o marido de Isabela, Luis. Luis Da Sousa beijou a mo de Carin.
Encantado.
Carin se ruborizou. Isabela parecia sada de um salo de beleza parisiense; seu marido era uma cpia exata de Paul Newman.
Os amigos de Rafe so meus amigos  reps no sussurro agudo que momentos atrs tinha considerado to inteligente.
Ele apoiou uma mo nas costas dela.
E este ... minhas desculpas, Senhor. Temo que esqueci seu nome.
Carlos Garca, dona Carin. Muito gosto.
En... encantada de conhec-lo, Senhor  gaguejou.
Perguntou-se se era possvel que tivesse cometido um erro. No tinha esperado que ele se recuperasse to cedo nem oferecer um espetculo a uma companhia to sofisticada. E quem era essa loira preciosa com as pernas interminveis a que Rafe tinha estado segurando a mo?
Rafe lhe rodeou a cintura e plantou uma mo sobre seu quadril. Aos convidados pareceria um gesto afetuoso. Mas na realidade era que os dedos se cravaram com fora em sua carne.
E agora, minha adorvel mulher, quero te apresentar a uma amiga especial. Uma querida e antiga amiga  a girou para a loira. Apresento-te Claudia Suares.
Claudia era alta, deslumbrante e no usava um vestido longo e feminino, a no ser algo que apenas lhe cobria as coxas. Seu sorriso poderia ter vendido pasta de dente, automveis, possivelmente uma paz mundial.
Tragou saliva.
Ol  disse, demonstrando que podia colar o lbio sobre um dente manchado e falar com mesmo tempo.
Que encantada  reps Claudia com voz suave como uma pluma e doce como fio de acar. Olhou a Rafe e lhe dedicou esse sorriso. - Que mau s, querido, ao pr  mulher com a qual te casaste e  mulher com a que se supunha que te ias casar  mesma mesa. Quanto nos vamos divertir.
No foi divertido. Absolutamente.
O plano inteligente de Carin se desinflou como um balo furado. Viu-o expirar assim que entrou na sala, mas o anncio de Claudia lhe tinha dado o golpe de misericrdia.
Todo mundo tinha rido com amabilidade ante a pequena brincadeira, e ento Rafe tinha explicado que Claudia e ele tinham estado comprometidos.
As coisas no funcionaram  tinha acrescentado ela com um olhar aceso em direo de Rafe.
No  tinha corroborado ele. Mas seguimos em contato.
Certamente  tinha ronronado Claudia.
Claro  havia dito Carin com um sorriso enquanto tratava de decifrar o que significava tudo. Tinham estado comprometidos fazia seis meses, seis anos ou seis semanas? E quais eram as coisas que no funcionaram e o que significava isso de que seguiam em contato?
Pela primeira vez lhe ocorreu que seu marido poderia ter mantido uma relao antes de sentir-se obrigado a casar-se com ela. Possivelmente seu matrimnio eram as coisas que no tinham funcionado entre Claudia e ele.
Era evidente que pareciam ntimos. Esses olhares que intercambiavam. Os sorrisos. O contato da mo de Claudia no brao de Rafe...
A conversa girou a seu redor. Ningum parecia esperar que participasse, e no o fez. Quando por fim o jantar terminou, Carin pensou que tambm a noite tinha chegado a seu fim.
Equivocava-se.
Tolices, querida  disse Rafe de bom humor, rodeando-a outra vez com o brao . A noite  um criana. Tomaremos caf e brandy no ptio.
No, pensou ela, e se atrasou enquanto outros saam da sala.
Rafe? Acredito... acredito que irei para cima. Por favor, diga a seus convidados...
Nossos convidados  se inclinou para aproximar a boca  orelha dela, como se quissesse lhe sussurrar uma palavra carinhosa . Ficar at que te despea, ou que Deus me ajude, lamentar-o.
Acreditou-o, por isso deixou que a conduzisse ao ptio e lhe apartasse uma poltrona, como se fosse o marido mais solcito do mundo.
Elena levou caf. Carin o serviu em taas diminutas e translcidas como delicadas cascas de ovo, enquanto Rafe servia brandy em taas de cristal. Ela se perguntou se algum podia ver que morria por dentro, que a vingana havia se voltado contra ela, que em vez de humilhar a seu marido, humilhou a si mesma...
Algum contou uma piada e outro riu. Isabela, que era to amvel como encantadora, falou com ela. Carin simplesmente sorriu, assentiu e esperou dar a impresso de estar escutando.
Mas o que fazia era olhar a Claudia e a Rafe, observando que a cabea escura estava inclinada sobre a loira.
Viu a mulher que tinha estado comprometida com ele acrescentar uma colherada de acar ao caf de Rafe, antes de que este pudesse faz-lo, ouviu-a concluir as frases iniciadas por ele. Ouviu a risada baixa de Claudia enquanto Rafe lhe sussurrava algo ao ouvido. Pareciam amantes to concentrados em si mesmos que tinham esquecido que existia o resto do mundo... e de repente compreendeu por que seu marido no tinha lhe exigido que compartilhassem a cama.
Claudia era sua amante.
Ficou de p como se tivesse sido disparada por uma mola. O vestido horroroso roou a mesa e a taa e o prato de Carin caram sobre o cho de ladrilhos do ptio.
Todo mundo deixou de falar. Primeiro olharam a porcelana quebrada e depois a ela. Sabia que deveria desculpar-se ou brincar sobre sua estupidez, mas tinha a lngua muito pastosa para falar.
Oh, que pena  disse Claudia. Derrubaste caf sobre o vestido  a boca perfeita se elevou nos cantos . Espero que no tenha estragado ele, Carin. Posso imaginar quo difcil seria substituir algo to... hmmm, to incomum.
Claudia  lhe advertiu Isabela.
E o homem que ia com Claudia a olhou com expresso severa. Mas Rafe, que se encontrava preso por seu casamento com ela em vez de estar com a loira formosa a que de verdade desejava, guardou silncio.
As lgrimas nublaram os olhos de Carin. Recolheu a espantosa saia do vestido e saiu com rapidez do ptio. Ao entrar na casa, comeou a correr.
Carin  gritou Rafe.
Ouviu-o ir atrs dela e acelerou o ritmo para o dormitrio.
Carin  uivou. Espera!
Conteve uma gargalhada. J no aceitaria mais ordens de Raphael Alvares, tinha terminado com essa farsa de casamento. No queria voltar a falar com ele, no queria v-lo nem ouvi-lo nunca mais.
No poderia ret-la ali, sem importar as ameaas que lhe fizesse. Essa mesma noite ia levar a Amy e o abandonaria.
Ofegando, sem flego, alcanou o dormitrio e abriu a porta. Gritou quando os braos de Rafe a rodearam.
No  tentou escapar das fortes mos fechadas em torno de sua cintura, mas ele a elevou no ar, colocou-a no dormitrio e fechou a porta . Maldito seja, maldito seja, Raphael Alvares!
Ests louca?  girou-a em seus braos e jogou a cabea para trs para se esquivar dos punhos dela . Carin!  tomou os pulsos com uma mo e o queixo com a outra . Pra!
Odeio-te  soluou . Ests me escutando, Rafe? Desprezo-te.
E por esse motivo decide me envergonhar diante de meus convidados?  fez uma careta. Te deu muito prazer me humilhar esta noite?
Eu? Envergonhar a ti?  lutou infrutificamente para soltar-se . O que me diz do que voc me tem feito? Exibir a sua... amante diante de meu prprio nariz. Convidar a seus amigos para que presenciassem minha humilhao.
No fale como uma idiota!
No importa. Deixo-te, Rafe.
Ele a soltou, cruzou os braos e a olhou atravs de seus olhos entreabertos.
No, no vais deixar-me.
Oh, sim. J  bastante ruim que me obrigasse a me casar...
Temos que pensar em uma menina, ou  to egosta que ainda s pensa em ti?
No te atrevas a me dizer isso! Eu egosta? Que penso somente em mim?  plantou as mos nos quadris. Suponho que fui eu quem se foi do dormitrio naquela noite sem olhar para trs, que fui eu quem exigiu este casamento, quem estabeleceu um punhado de regras estpidas e egocntricas...
 egosta ao no ver a necessidade de oferecer dois pais a uma menina.
E voc  lhe cravou um dedo no peito , voc lhe daria um pai que tem esposa, mantm uma amante e no se importa nenhum pouco quem saiba.
No tenho uma amante  lhe segurou a mo.
Oh, me d um descanso! Sua amante est l embaixo, rindo pelo bem foi a noite.
Possivelmente eu no devia ter convidado Claudia  reps muito srio.
Acreditas que a poderias ter mantido em segredo? No me importa  retorceu a mo para soltar-se . No me importa se tiver cem mulheres mais. Mil. Pode ter tantas co...
Se isso fosse verdade  sorriu, ento, por que est to incomodada?
 to tapado, Senhor? Estou incomodada porque eu no gosto que me deixem como uma tola no que se supe que  meu lar.
Este  seu lar  ele suspirou e mexeu no cabelo.
No por muito tempo.
Carin  pigarreou . J reconheci que provavelmente no teria que ter convidado a Claudia. Tambm deveria ter te falado dela.
Que encantado  riu ela. Para que? Achas que te teria dado minha bno antes de que a levasse a cama?
Voc  minha esposa  afirmou com aspereza. A partir de agora s a nica mulher a qual levarei a cama.
Oh, isso  inclusive melhor. Esperas que me sinta adulada de que queiras me usar como... como substituta de sua amante?
Refere-te ao modo em que eu fui substituto do teu?  reps com voz afiada.
Maldito seja, Rafe! Isso  mentira! Deitei-me contigo porque queria faz-lo, porque me fez sentir... fez-me sentir... olhou-o, desejando que houvesse um modo de retirar essas palavras tolas. O tempo pareceu deter-se. Ao final, deu um passo para trs . Deixa... deixa que v para casa  sussurrou. Deixa que eu leve a minha filha.
As mos de Rafe se fecharam sobre seus ombros.
O que te fiz sentir, querida?
Nada  moveu a cabea . No sei por que o disse  era verdade. Nunca se tinha permitido pensar no que havia sentido naquela noite nem, por que se tinha atirado nos braos de Rafe. E no queria pensar nisso essa noite, tendo-o to perto . Rafe, por favor, vamos por um fim a esta situao. No temos um casamento, temos uma... uma triste imitao. Casou-te comigo por causa da Amy, mas ela perceber a verdade  medida que v crescendo. Saber ...
Ele a abraou. Ela apoiou as mos em seu torso para mant-lo longe, mas ele colou seu corpo rgido ao seu.
Me responda, minha esposa. O que te fiz sentir quando se entregou a mim?
Tremendo, Carin apartou o rosto, sabendo que no era seguro olh-lo nos olhos ou responder sua pergunta com algo que no fosse uma mentira.
No senti... no senti nada.
Ah. Nada. Certamente, devo ter imaginado  com suavidade, tomou o queixo e a obrigou a olh-lo . Por isso tremia ento, do mesmo modo que treme agora, por isso se desmanchou nos meus braos  sorriu e tirou o leno do bolso . Me pergunto o que teria acontecido se tivesse tido este aspecto na noite em que nos conhecemos  com suavidade limpou todo rastro de batom prpura . Eu gosto de pensar que teria sido capaz de ver mais  frente do vestido feio, querida, mas o batom... no sei.
Foi impossvel que Carin no soltasse uma risada tremente.
Oh diabos, o que pensaro seus amigos?
Direi-lhes que  um velho costume dos Estados Unidos  comentou com solenidade. Lhes direi que uma noiva deve aproximar-se de seu prometido o mais feia que lhe seja possvel, que  uma prova do que sente por ela, para comprovar se ainda a deseja, embora ela leve um vestido da cor... passou o dorso da mo pelo babado do pescoo. Que cor ? Tem nome?
Verde Espantoso. E mudaste por completo de tema. Claudia  tua amante?
No  o sorriso se desvaneceu. No .
Ento, o que ? Existe um vocbulo especial em seu idioma para o papel que desempenha em sua vida?
O mesmo que no teu.  s uma amiga.
Uma amiga extremamente amistosa.
Sim, bom... encolheu-se de ombros . Minhas desculpas, querida. Nunca me tinha dado conta de que... me toca tanto. E, como j te disse, deveria ter te falado dela.
Mas estavam comprometidos para se casar.
Foi faz muito tempo. Cinco anos. Mais. E fui eu quem ps fim  baixou as mos pelos braos de Carin e tomou as suas mos .  uma menina malcriada, no uma mulher, e hoje no  mais fiel a um homem do que foi naquela poca  respirou fundo . Acredito que quando um homem toma a uma mulher por esposa, esto obrigados a respeitar os votos matrimoniais. Um homem, uma mulher. Ningum mais.
Ela ainda... ainda te deseja.
Paquera com todos os homens que conhece... suspirou . Sim. Suponho que  verdade. Ofereo-lhe conselhos em seus assuntos financeiros, embora possivelmente j  hora de que procure esses conselhos em outra parte.
No tem por que deix-la por mim  afirmou com rigidez.
Deixei-a faz anos, querida  sorriu, elevou as mos dela a seus lbios e as beijou . Alm disso, voc  muito mais formosa que ela.
De verdade achas que me importa ... ?  titubeou. O sou? Sou mais bonita que Claudia?
Decididamente  sorriu. Embora esta noite foi difcil v-lo.
Quer dizer que voc no gosta deste vestido?  elevou o queixo. Bom, foi por tua culpa. No tinha direito de mandar que me mudasse de quarto.
Tinha todo o direito  suavizou as palavras abraando-a . s minha esposa. Estamos casados, meu amor. Por que teria que mentir a mim ou a ti?  beijou-a na boca. Te desejo. E voc me deseja.
Ela o olhou nos escuros olhos e formulou a pergunta que a tinha incomodado todos esses meses.
Por que saiu da minha cama naquela noite?
Encerrou-te no banheiro  seu tom se endureceu . Deixou bem claro que j no era necessrio.
Carin suspirou e apoiou as mos em seu torso.
Fiz-o porque... porque me envergonhava do que tinha feito.
Te deitar com um desconhecido  murmurou Rafe. E... tinha sido... to selvagem...
Ele gemeu, a colou ao corpo e a beijou. Carin se conteve s uns segundos. Estava com seu marido. Tinha direito a desej-lo, a entregar-se a ele, embora o casamento no se apoiasse no amor. Pela primeira vez desde a noite em que conceberam Amy, permitiu-se derreter-se nos braos de Rafe.
Nunca esqueci aquela noite  sussurrou sobre os lbios de Carin enquanto lhe acariciava as costas . No se parecia... a nada que tivesse feito antes.
Para mim foi igual  suspirou, apoiando-se em seus braos.
 to formosa  murmurou; formosa e frgil, pensou. Franziu o cenho. No pesava nada; nesse momento pde ver que tinha as mas do rosto marcados e tambm olheiras . Ests esgotada, querida, e a culpa  minha por ter convidado a meio mundo... ela sorriu . Deveramos ter passado a noite a ss. Devia te pr a dormir faz horas.
Me pr? Rafe, o que ests fazendo?
O que devia ter feito em vez de te atormentar com a Claudia  ele lhe tinha dado a volta para que ficasse com as costas para ele. Soltou-lhe a horrvel renda e lhe baixou o zper do vestido. Vou te deitar.
No! Quero dizer, posso faz-lo eu...
Sshhh.
Inclinou-se enquanto o vestido se deslizava por seus ombros e lhe beijou a nuca. Ela soltou um leve gemido, e o som, o conhecimento de que o desejava e j no o negava, ps Rafe to duro como uma rocha.
Mas no lhe faria amor essa noite. Estava cansada e tambm doda, e tudo por sua culpa. Tinha obrigado a casar-se em vez de convenc-la, tinha-a afastado da vida que tinha levado.
O compensaria, comeando nesse mesmo instante. Sorriu ao pensar nos anos que tinham pela frente. Poderia construir uma vida com essa mulher. Compartilhariam a paixo, o respeito, o amor de sua filha.
Nunca tinha sido o bastante tolo para acreditar no tipo de amor que se supunha que existia entre os homens e as mulheres. Sabia que no havia nada parecido, no depois de ter sido criado com as histrias tristes, tolas e sentimentais de sua me e com a realidade da vida que tinha tido.
Um casamento se podia apoiar em muitas coisas. O amor no tinha nada que ver com nenhuma.
Com suavidade baixou o vestido pelos quadris de Carin, at que chegou aos ps. Ela se descalou e lhe apartou os sapatos. Sentiu-a tremer sob seu contato, sentiu a pele acesa dela sob sua boca e mos. Rodeou-lhe a cintura com os dedos, beijou-lhe os ombros e gemeu pelo prazer. Tinha sabor de mel e a luz de lua, a flores e a desejo.
Rafe respirou fundo. Depois a voltou para ele e a observou.
Era inclusive mais formosa do que recordava. Seus seios se elevavam em montculos cremosos por cima de um suti branco de renda; usava umas diminutas calcinhas brancas e umas meias que se aferravam  parte superior de suas coxas.
Sussurrou algo em portugus, elevou uma mo e a passou com delicadeza sobre seus seios, sem deixar de olh-la enquanto a tocava, enquanto lhe acariciava o ventre, para em seguida deslizar a mo entre suas pernas e pression-la.
Estava quente e mida, e saber o muito que o desejava esteve a ponto de pr-lo de joelhos.
Voc gosta quando te toco, querida?  murmurou.
Sim  suspirou Carin. Oh, sim... gritou quando lhe soltou o suti e os seios caram sobre as mos de Rafe.
Deus  gemeu ele ao passar os dedos polegares pelos mamilos e ver que Carin jogava a cabea para trs em uma postura de total abandono . s to formosa, minha esposa. Me tira o flego.
Eu... ganhei peso  sussurrou . Pensava... perguntava-me o que pensaria se me visse. No estava segura de...
Rafe inclinou a cabea, beijou-lhe os seios, lambeu os cumes compactos. Desejava lhe beijar as coxas, colocar a boca em seu vrtice para inalar seu aroma, mas sabia que se o fizesse se desmoronaria.
Ergueu-se, tirou os sapatos e se despiu de toda roupa menos das cueca pretas de seda.
Carin o percorreu com o olhar. A noite que tinham estado juntos fazia tantos meses no tinha chegado a v-lo por completo. As coisas tinham ido muito depressa. Nesse momento pde ver a beleza do homem com o qual havia se casado. Os ombros e os braos duros e musculosos. O plo negro e sedoso do torso. O ventre plano, os quadris estreitos, as pernas longas...
A rigidez de sua ereo que se esticava contra a seda preta.
Uma onda de calor lhe percorreu o corpo e sentiu que os joelhos lhe tremiam.
Rafe  murmurou, oscilando para ele, para que a tomasse nos braos e a levasse a cama.
Ele apartou o edredom e com suavidade a depositou sobre os travesseiros. Em seguida se deitou ao lado de Carin e a envolveu em seus braos. Desejava lhe tirar at a ltima pea de renda que a separava dele. Lhe abrir as pernas e enterrar-se o mais fundo nela.
No, disse-se, esta noite no.
Carin  lhe apartou o cabelo do rosto . Te ds conta de que nunca dormiste comigo?
Mas... fiz-o. Aquela noite...
No, querida. No dormimos juntos. Abandonaste a cama e meus braos  sorriu e lhe deu um beijo prolongado . Quer dormir comigo agora? Dormir de verdade comigo, sem que acontea outra coisa. Quer aconchegar-te em meus braos, fechar os olhos e te entregar ao sono?
Rafe  lhe emoldurou o rosto entre as mos . s muito... muito generoso, mas... sinto que de verdade quer. Estou cansada, sim, mas s meu marido...
Sim  voltou a beijar-la e a aproximou. Sou seu marido, Carin. E posso esperar.
Meu marido, pensou enquanto Rafe lhe acariciava as costas, beijava-lhe as tmporas, o cabelo. Oh, meu marido... Suspirou, fechou os olhos e se relaxou em seu abrao protetor. Em poucos minutos, estava adormecida.
 


Captulo 9

Carin tinha dormido toda a noite. Rafe no. Como um homem poderia dormir com uma mulher clida e doce em seus braos?
Uma mulher que era sua esposa.
Sorriu. Uma noite de descanso lhe tinha feito bem. As sombras sob os olhos tinham desaparecido. Ainda parecia muito magra, mas sabia como arrumar isso. A partir desse momento farim todas as refeies juntos. Organizaria um churrasco e convidaria aos Da Sousa e a todos seus conhecidos, e apresentaria a sua esposa s pessoas que a fariam sentir bem-vinda.
Quanto a Claudia... quando voltasse a falar com ela, deixaria-lhe bem claro que era hora de que se procurasse outro assessor financeiro, j que era um homem casado que no toleraria nenhuma falta de respeito com sua esposa, porque Carin merecia seu respeito, sua fidelidade e, acima de tudo, seu am...
Conteve o flego.
Com cuidado, tirou a mo de Carin do peito. Ela murmurou um protesto e suspirou, aconchegando-se contra ele.
O tempo se deteve.
Rafe olhou o teto, com a mente em branco; o nico som no universo era o relgio de parede e o suave murmrio da respirao de Carin.
Era uma tolice. O amor no existia. Jamais se tinha enganado com isso. A paixo, a luxria... eram emoes compreensveis. Um matrimnio podia cimentar-se nelas, sempre e quando se acrescentassem outras coisas. Respeito. Fidelidade. Lealdade. Amizade.
Acreditava nesses princpios. Sua esposa tambm acreditaria neles. Os exigiria. Um homem, uma mulher. Ningum mais. A noite anterior o havia dito. A luxria era o que os tinha unido. Quando o desejo tivesse se desvanecido, os princpios os manteriam unidos.
Carin suspirou e se colou a ele, com o flego quente contra seu pescoo. Rafe gemeu, deixou de pensar e a tomou nos braos. Beijou-lhe a tmpora, a bochecha, e quando ela voltou a suspirar, colocou-a de barriga para cima, acariciou-lhe o cabelo e com suavidade lhe beijou os lbios.
Ela foi despertando lentamente, sussurrando seu nome, e Rafe foi percorrido por um prazer to profundo que lhe sacudiu a alma. O corpo de Carin estava aceso ao lado do dele. E sedoso. Inclinou a boca e aprofundou o beijo, abrindo-a para ele com a ponta da lngua. Carin gemeu e lhe acariciou o cabelo.
Carin  sussurrou, o nome to doce como seu sabor . Carin, meu amor, desejo-te. Desejo-te tanto que me di.
Ela apoiou a mo em sua nuca e lhe baixou a cabea para lhe dar um beijo; era toda a resposta que Rafe necessitava.
Apartou-se e estudou o rosto de sua esposa enquanto apartava o lenol de seu corpo.
s formosa, querida  murmurou Rafe com a respirao acelerada. Deu-lhe outro beijo na boca e bebeu de seu sabor enquanto deslizava a mo por seus seios, continuava pelo quadril e traava a linha da coxa. Os gemidos suaves de prazer de ambos se misturaram, e ele abandonou toda tentativa de pensar tendo-a nos braos.
Beijou-lhe a garganta e o ombro, a delicada montanha dos seios. Carin murmurou seu nome quando com a lngua, ele brincou com seus sensveis mamilos. O suspiro se converteu em um gemido quando Rafe desceu com a boca at o ventre.
Lhe percorreu uma intensa sensao de necessidade, de tom-la, de possui-la, de faz-la sua ao fim. Ajoelhou-se sobre ela, deixou que os dedos procurassem os cachos sedosos que guardavam o ncleo dessa maravilhosa feminilidade, deslizou as mos entre as coxas e a tomou.
Estava quente contra a palma de sua mo, mida pelo desejo. Rafe se disse que era melhor ir devagar. Temia machuc-la; nunca tinha feito amor com uma mulher que poucas semanas antes tinha dado a luz.
Disse-lhe quo formosa era, o muito que a desejava, com suaves palavras em portugus enquanto baixava sobre seu corpo. Com delicadeza apoiou a boca sobre seu ventre, em seguida sobre esses cachos sedosos. Ela emitiu um grito sobressaltado quando lhe abriu as coxas, ps as mos sob seu corpo e a elevou para ele.
Ento colou a boca a seu sexo.
O grito de xtase de Carin se elevou no silncio da habitao. O mundo de Rafe tremeu; gemeu, perdido no sabor dela, no conhecimento de que estava pronta para que a possusse. Seguiu-a beijando e brincando com a lngua, e quando se arqueou para ele e se colou  sua boca, subiu por ela, ajoelhou-se entre suas coxas e a penetrou devagar e se moveu em seu interior com uma concentrao quase mstica, enquanto se centrava no pouco autocontrole que restava, sabendo que no devia mover-se com fora, que no devia machuc-la...
Rafe  sussurrou e se aferrou a ele, fazendo que este perdesse o pouco controle que lhe restava.
Derrubou-se sobre ela com a respirao entrecortada, extenuado, cheio de um jbilo que nunca antes tinha experimentado. Carin o abraou e sussurrou seu nome sobre seu pescoo. Ele a rodeou com os braos e murmurou palavras de carinho em portugus e em ingls, e a beijou.
Ficaram deitados dessa maneira enquanto o tempo passava e suas respiraes se recuperavam, at que Rafe se deu conta de que tinha imobilizada a sua mulher com todo o peso de seu corpo. Amaldioou em voz baixa, foi apartar-se, mas ela o segurou com os braos. 
Por favor, no me deixe.
Ele rememorou aquela noite em que se deixaram mutuamente e a beijou.
Jamais voltarei a te deixar  sussurrou com voz rouca . Mas estou te esmagando.
No  sorriu.
s to pequena...
Pequena?  ela riu em voz baixa, acariciou-lhe o rosto e lhe apartou o cabelo mido da testa. Meu marido, pensou. Este  meu marido. No sou pequena, Senhor.
Delicada, ento  rodou a um lado, abraou-a e lhe sorriu . Delicada e to formosa que ao lhe olhar fico sem flego  ela se ruborizou . Querida  respirou fundo e lhe acariciou a bochecha. Ela pde ver a sbita tenso no rosto de Rafe . Acredito... acredito que deveramos levantar.
Nos levantar?
Sim  sentia que os msculos lhe torturavam . J sabe, tomamos uma ducha, tomar o caf da manh... averiguar o que passou ontem  noite com os convidados.
Suspeito que se cansaram de nos esperar  riu Rafe. No faa isso, querida.
O que?  sussurrou, e voltou a mover-se de maneira imperceptvel.
O melhor ser a ducha. Longa e muito, muito fria...
Eu tenho uma idia melhor  murmurou Carin.
Colocou a mo entre seus corpos e a fechou em tomo  ereo de Rafe. Ele grunhiu, ps a debaixo dele, tomou as mos e as imobilizou a ambos os lados da cabea.
Ests brincando com fogo  afirmou com voz rouca.
Sim  confirmou, tonta pelo desejo e pelo poder que tinha sobre ele.
No quero te machucar, querida  murmurou com seu ltimo vestgio de controle.
S poderia me machucar se me diz que no quer que voltemos a fazer amor.
Jamais te direi isso  devagar, sem deixar de olh-la, introduziu-se nela. Me aceite em seu interior, esposa minha. E me olhe enquanto o faz.
Ela abriu os olhos. Rafe era tudo o que podia ver.
Me olhe e diga meu nome.
Rafe  murmurou Carin.
Ele se moveu.
Diga-o, minha esposa.
Rafe  soluou enquanto a preenchia . Rafe...
Quem sou?  perguntou com ferocidade. Me diga o que quero ouvir.
s meu marido...
Essas palavras e o arco que adotou o corpo de Carin lhe fizeram perder todo contato com a realidade. Investiu com mais fora. Lhe cravou os dedos nos bceps e gritou. E justo antes de que Rafe abandonasse seu mundo cuidadosamente controlado, uma emoo que no tinha nada que ver com o sexo cintilou em sua mente e lhe atravessou o corao.
Carin despertou em uma habitao cheia de dourados raios de sol.
Estava sozinha, mas no como no passado. A presena de Rafe seguia ali, no lenol quente, em sua fragrncia no travesseiro.
Suspirou, ficou de barriga para baixo e fechou os olhos.
Que noite incrvel tinha sido. Quem teria podido imaginar que toda essa fria se dissolveria e primeiro se converteria em ternura e depois em paixo?
Seu marido era um homem notvel. O amante mais maravilhoso. O pouco sexo que Carin tinha praticado com antecedncia, nunca se tinha parecido a isso. Rafe a tinha acariciado, beijado e estimulado por toda parte. A ltima vez havia se negado a deix-lo se retirar dela, e quando ficaram adormecidos, ele seguia em seu interior.
Sentia-se saciada, lassa e extasiada de felicidade.
Sentia-se... sentia-se amada.
Seu sorriso se desvaneceu. Deu-se a volta, subiu o lenol at o queixo e olhou o teto.
<<Haviam feito amor. Isso no significava que a amasse. Nem que quisesse que Rafe a amasse. Podiam ter um casamento perfeito sem amor... ou o que isso fosse.
Seus pais se amaram, mas, duas pessoas que havia se <<amado de verdade terminariam por odiar-se? Seu padrasto afirmava ter amado a todas suas esposas... embora a definio que Jonas dava  palavra nem merecia ser tida em conta.
Todos seus irmos e meio-irmos estavam loucos por suas respectivas esposas, mas o que Rafe e ela sentiam no era amor. Era luxria.
Saiu da cama, recolheu o robe, o ps e se dirigiu ao banheiro.
E isso estava bem. A luxria era o que tinha levado Rafe a sua vida, era o que a noite anterior os tinha unido. E se tivessem sorte, seria o que os manteria juntos, junto com a devoo que sentiam por sua filhinha.
O amor era o que tinha acreditado encontrar com Frank.
A idia que tinha Frank do amor o tinha levado aos braos de outra mulher. E lhe tinha rompido o corao.
Enquanto saa do banheiro, pensou que realmente o que tinha sofrido tinha sido seu orgulho, no seu corao. Nunca tinha amado a Frank, do contrrio, teria desejado seus beijos, como desejava os de Rafe. Teria suspirado quando a tocasse, como estava suspirando toda a manh. Teria se envolto em seu robe, como nesse momento tinha o robe de Rafe, e ao ansiar sua fragrncia teria desejado o ter em braos...
Olhou cegamente pela janela. No era verdade. No podia ser. O que sentia pelo Rafe era... era desejo. Nesse momento tambm podia reconhecer que havia respeito, algo que no dia anterior teria negado. E gostava dele . Era inteligente, gracioso, generoso...
Mas no o amava.
No queria am-lo. O amor era perigoso. Inseguro. Te deixava vulnervel ao pior tipo de dor...
Bom dia, querida.
Girou e o viu na soleira, com uma bandeja de prata nas mos.
Te assustei?  com o cotovelo fechou a porta e foi at ela . Pensei que poderia ser como eu. Nem vale a pena falar comigo at no ter tomado meu caf da manh.
Sorriu, deixou a bandeja sobre uma mesa pequena junto  janela e se sentou em uma das duas poltronas  que a ladeavam. Carin se sentou em frente a ele. Rafe serviu duas taas de caf e lhe passou uma.
Ela levou a taa aos lbios e enterrou o gemido de consternao em seu interior. Perguntou-se o que era o melhor que podia dizer para conversar com seu marido pela manh. Com o homem do qual havia se apaixonado. A taa lhe tremeu na mo. Deixou-a no prato, depositou ambos com cuidado na mesa e lhe sorriu com um gesto que esperou que fosse mais firme que suas mos.
Bom  disse.
Bom  repetiu Rafe, sorrindo-lhe.
Hmmm, tenho que ir ver Amy.
J o tenho feito. A bab lhe deu a mamadeira e agora est dormindo.
Oh.
Disse que passaramos para v-la antes do almoo.
O almoo? Mas isso no ser at...
Olhou-o com acanhamento. Depois de tudo, nunca antes tinha despertado na cama de um homem. E nesse momento era pior. Estava assustada, no dele, mas sim de si mesma. Ele nunca poderia saber que... que acreditava am-lo. Do contrrio, teria muito poder sobre ela.
Carin  tomou a mo. O que acontece?
Ela sentia os lbios ressecados; os umedeceu com a ponta da lngua.
Nada. Imagino... que no sei o que se supe que devo fazer.
Basta com que me deixe te olhar  levou sua mo aos lbios, deu-lhe a volta e lhe beijou a palma . s to formosa. Estive a ponto de despertar para lhe dizer isso.
Obrigado  sorriu insegura, recuperou a mo e a apoiou no colo.
Acontece algo  afirmou Rafe . Ests te sentindo mal? Machuquei-te, querida?
No! No, estou bem.  que... no me d muito bem... a manh seguinte.
Por que no?
Bom... respirou fundo . Porque... porque nunca antes tinha despertado na cama de algum.
Ele guardou um longo silncio. Depois assentiu, como se ela no lhe tivesse contado nada mais importante do que ia chover.
No?
No  baixou a vista, e de repente soube que queria contar-lhe. Olhou-o outra vez. Frank foi o nico outro homem com o qual estive.
Compreendo  a expresso de Rafe permaneceu inescrutvel.
Estou-te aborrecendo?  ficou de p . Porque nesse caso...
Carin  tomou pelamo e se levantou. Por que me contas isso?
De fato, nem eu sei  elevou o queixo . Tive a estpida idia de que poderia interessar-se, que ao ser meu marido quereria saber que no sou... promscua, que quando se trata de sexo...
No pares agora  murmurou com um leve sorriso que ela no foi capaz de interpretar . No quando comea a ser interessante.
O que tento te dizer  se ruborizou   que nunca passei uma noite inteira com Frank, e que o sexo com ele no foi... nunca foi...  Calou. Rafe se aproximou e lhe levantou o queixo com um dedo.
Ontem  noite fizemos amor, querida. H uma diferena.
Sim  sussurrou, sim, h.
Durante um momento temi que ias me dizer que Frank tinha sido um amante ao qual jamais esqueceria.
No. Oh, no. Absolutamente. O que tentava te dizer era... era... voltou a calar-se, mordeu-se o lbio e logo lhe deu de presente um sorriso brilhante . Sente-se. Deixa que te sirva mais caf.
Ele assentiu e obedeceu. Carin lhe encheu a taa e a passou. Rafe j estava farto de caf, mas se permanecia ali o tempo suficiente, possivelmente pudesse descobrir que diabos passava. Carin acabava de lhe contar que tinha estado com s um outro homem, e que no tinha sido to bom como com ele.
No sabia por que o tinha feito, e no  que no gostasse. Tinha-lhe exposto com claridade que o fantasma que tinha flutuado sobre seu casamento tinha sido banido. Entretanto, se isso era verdade, por que a via to infeliz?
No sabia o que tinha passado desde a ltima vez que tinham feito amor.
Amor, pensou e a taa lhe tremeu nas mos. Mas era verdade. Havia uma diferena entre fazer  amor e ter sexo. O que tinha sentido com ela tinha sido... tinha sido diferente.
Fica comigo, tinha sussurrado ela na ltima vez, fique dentro de mim, Rafe.
Tinha-o feito. Tinha querido estar dentro dela para sempre. Em seus braos, em seu corao.
Com cuidado deixou a taa sobre a mesa e ficou de p.
Acredito que irei tomar uma ducha.
Eu me vestirei  Carin elevou o rosto e assentiu.
Bem  pigarreou . E depois... hmmm... tenho que sair com alguns de meus homens.
Certamente.
Sim  atravessou a habitao, deteve-se junto  porta e a olhou . Foram vistos rastros de puma perto do pasto do sul. Temos que expuls-lo ou...
Rafe  murmurou ela, e o modo em que pronunciou seu nome lhe indicou tudo o que queria saber.
Querida  disse, abrindo os braos.
Carin se lanou a eles e nesse momento, Rafe soube que sua vida tinha mudado para sempre.
 


Captulo 10

Carin estava sentada na grama sobre uma manta com as pernas cruzadas. Amy a seu lado no parava de mover os bracinhos e as pernas enquanto contemplava assombrada o cu.
Ela o est vendo  comentou Rafe orgulhoso. Est olhando as nuvens. O que pensar com semelhante concentrao?
Sua sombra caiu sobre as duas. Carin elevou a vista e, como sempre, o corao lhe deu um tombo ao ver seu marido, que tinha estado trabalhando com os cavalos. Com jeans, camiseta e botas gastas, o via grande, selvagem e magnfico.
Ol  sorriu.
Ol, querida  ele devolveu o sorriso. Inclinou-se e lhe deu um beijo suave na boca. Ela o aproximou mais . Preciso tomar uma ducha  sussurrou sobre seus lbios. Estou suado.
Hmmm. Ests sexy  lhe mordeu o lbio inferior .Senti sua falta.
Rafe se sentou a seu lado, tomou sua mo e lhe beijou os dedos.
Eu tambm. De fato, tenho ordens estritas de meus homens de no me apresentar a trabalhar esta tarde. Se divertem vendo que no consigo me concentrar.
A Carin custava a acreditar o muito que tinham trocado as coisas em poucos meses.
Seus dias eram longos e felizes. Rafe trabalhava no escritrio pelas manhs enquanto ela passava tempo com Amy ou com Elena na cozinha tratando de aprender os segredos da deliciosa cozinha brasileira.
Pelas tardes, mostrava-lhe, montados a cavalo, todos seus lugares favoritos: a pequena clareira no bosque onde o sol brilhava como fogo sobre as folhas; o vale estreito onde em uma ocasio tinha acreditado ver um jaguar; o lago verde esmeralda onde tinham nadado nus e feito amor na margem gramada.
Ao observ-lo nesse momento enquanto sustentava a sua filha nos braos, de repente pensou que era feliz.
Era verdade. Sentia-se mais feliz que nunca, feliz, satisfeita e profundamente apaixonada.
Disse-se que no tinha sentido neg-lo. Amava a Rafe, possivelmente desde aquela primeira noite em que a tinha resgatado de si mesma.
Tampouco importava quando tinha acontecido. Bastava com que assim fosse, com que a vida que tinha imaginado como um castigo solitrio infligido por um desconhecido arrogante havia se convertido em uma vida brilhante de gozo.
Nem sequer lhe incomodavam as espordicas visitas que Claudia lhes fazia, com qualquer desculpa, apesar de que Rafe lhe havia dito que procurasse outro assessor financeiro.
No me importa  havia dito a Rafe, e era verdade, porque ele se encarregava de lhe passar um brao pela cintura na presena de Claudia, ou de beij-la com suavidade nos lbios, de modo que quando levava  Claudia a seu escritrio, Carin sentia como se ainda estivesse a seu lado, deixando bem claro que era a nica mulher a qual desejava.
S podido ser ainda mais feliz se Rafe tivesse se apaixonado por ela.
s vezes... s vezes quase imaginava que assim era. Havia algo no modo em que se voltava para ela, algo na forma em que a olhava...
Querida?  Carin elevou a vista. Rafe se tinha posto de p com Amy na curva do brao. Sorriu, estendeu a mo e a ajudou a incorporar-se. Vamos entrar?
Ela assentiu, embargada por tanta felicidade que sentiu que lhe umedeciam os olhos.
Carin?  Rafe a colou a ele. O que acontece, querida?
Amo-te, pensou, amo-te e sou feliz ... 
Nada  disse com um sorriso. Nada. S... acredito que caiu algo no meu olho.
Ah. Aposto que tenho uma cura para isso  a beijou. Juntos, com Amy fazendo gorjeios, subiram pela colina em direo  casa.
Rafe disse que tomaria um banho, assim que deixasse Amy nos braos de sua bab.
Faria-o, mas no sozinho.
Parece um desperdcio to grande de gua -  murmurou quando ficou a ss com Carin no dormitrio. Sorrindo, elevou-lhe a camiseta e a tirou por cima da cabea. No ests de acordo, querida?
Sim  murmurou quando lhe cobriu os seios com as mos. Estou.
Ests vendo?  desabotoou-lhe o fecho dianteiro do suti e cravou os olhos nos seios quando ficaram nus . Me alegra que seja consciente destas coisas  se inclinou e tomou a ponta de um seio com a boca enquanto lhe acariciava o outro  ela tremeu quando lhe desabotoou os jeans e os desceu pelas pernas para os tirar. - Nunca consigo suficiente de ti  se incorporou e a contemplou . E ainda no acredito que me pertena.
Que comentrio to sexista, Senhor  murmurou Carin.
Mas est contente de me pertencer, verdade, Senhora? De ser minha esposa?
Sim  tambm ela sorriu. Oh, sim o estou. Exceto...
Exceto o que?
Exceto ainda ests usando roupa.
Assim como voc  riu ele com suavidade.
Eu no a tenho  se ruborizou, mesmo sabendo que era uma tolice. S restam as meias.
Ests para ficar sem elas.
Bom, pois quero que voc esteja assim tambm  disse, e levou a mo ao zper dos jeans para fech-la sobre a ereo dura e palpitante que havia sob o tecido.
Tome cuidado  grunhiu ele, lhe tirando a mo dali para levar-lhe aos lbios , ou ters que pagar o preo.
Carin se aproximou, colou o corpo ao dele e lhe paasou um brao pelo pescoo.
Me faa pagar  sussurrou quando a tomou nos braos.
Fez-lhe amor ali mesmo, na cama, com a roupa espalhada pelo cho. O aroma viril de Rafe, misturado com as fragrncias do couro e da capim, foi como um afrodisaco. Rodeou-lhe a cintura com as pernas e o introduziu todo, o fundo que lhe permitiu o corpo, e quando teve o orgasmo, segundos antes que ele, gritou seu nome.
No te mova  lhe pediu ela, encantada de sentir o peso dele enquanto se perguntava como e quando lhe dizer que o amava.
Vem tomar banho comigo, querida.
Carin fechou os olhos e voltou a abri-los.
S se me prometer que me ensaboar as costas.
Uma hora mais tarde se encontravam outra vez na cama, com o cabelo ainda mido pela gua.
Rafe a rodeou com um brao e a aproximou dele.
Cada dia que passa ests mais formosa.
Quem est  nossa pequena  sorriu.
Sim  lhe beijou o cabelo .  verdade. Nossa pequena vai ser to formosa como sua me suspirou . O que significa que terei problemas.
Por que?
Porque suspeito que serei o tipo de pai que submeter a interrogatrio a todo menino com o que sair. Quererei saber quais so suas intenes, se bebe, aonde leva a minha filha, a que hora a trar para casa.
Ouvi falar de pais como voc  ela riu.
Seu pai no era assim quando comeou a sair com meninos?
No estava presente  suspirou e apoiou uma mo no corao de seu marido . Nessa poca meus pais j havia se separado.
No sabia.
Bom, nunca falamos muito sobre nossas circunstncias.
No  aceitou depois de um segundo,  verdade. Surpreende-me, Carin. Seus pais se divorciaram, educou-te sem pai... isso deve te fazer mais... calou.
Mais o que?  apoiou a cabea sobre uma mo e o olhou.
Mais receptiva a te casar comigo.
Querer dizer que receptiva a receber a ordem de me casar contigo  o disse com rapidez, de brincadeira, mas sentiu que ele ficava rgido.
No tive escolha.
Sei que  o que acreditavas naquele momento  parte da felicidade que a embargava se desvaneceu , mas...
 o que sabia, o que sigo sabendo  tirou o brao de debaixo dela. Sentou-se e tirou as pernas pelo lado da cama . Como pde uma mulher que cresceu sem pai desejar o mesmo destino a sua filha?
Tambm Carin se sentou. Cobriu-se os seios com o lenol. A voz dele se tornou distante e acusadora.
Teria sido um erro para meus pais terem ficado juntos.
Estou convencido de que em crculos norte-americanos  uma atitude muito moderna e louvvel, mas...
Em crculos norte-americanos?  recolheu o robe de seda que estava deitado sobre o p da cama . E isso o que se supe que significa?
Requer uma interpretao?  ficou de p, foi ao closet e tirou umas cueca brancas de seda.  preciso duas pessoas para ter um filho, e duas para cri-lo.
Nem sempre. Se os pais no se amarem...
O amor nem sempre  necessrio em um casamento  disse com frieza. Se as pessoas forem adultas, podem chegar a um acordo.
O amor no  necessrio. As palavras ressonaram na cabea de Carin. Sentiu como se no mais fundo de seu ser tremesse.
Refere-se a como ns temos feito.
Rafe pde sentir que estava furiosa, embora no soube o por que. Era ele quem tinha direito de est-lo. Os dois tinham crescido sem pai. Carin deveria ter entendido a imoralidade de tratar de mant-lo afastado de sua filha. Mas o tinha convertido no vilo, em um homem que tinha tido que for-la a fazer o correto.
Mas tudo isso tinha ficado para trs. Estavam casados, e para surpresa dele, sentiam-se felizes juntos. Gostavam das mesmas coisas, desfrutavam da companhia do outro, dentro e fora da cama. Que mais era preciso, exceto pela cega certeza que tinha tido sua me de que o amor deveria ter sido tudo?
No o era, e seu matrimnio era prova disso. Ser que Carin era incapaz de v-lo por si mesma?
Respirou fundo e se voltou para olh-la. Estava plida, embora os olhos lhe brilhavam; compreendeu que se sentia doda, no zangada.
Sim  corroborou , como temos feito ns. Nosso casamento  um xito, no? Carin no respondeu. Rafe pigarreou. Possivelmente deveria te contar que eu tambm cresci sem pai.
Sim?
Ele colocou uns jeans e uma camiseta.
Sim  se passou a mo pelo cabelo . Possivelmente teramos que discuti-lo.
O que?
J sabe. Nossas infncias.
Se voc quiser  cruzou os braos.
Poderia te ajudar a compreender por que  to importante para mim que Amalia... Amy, cresa com um pai  abriu a porta de vidro que dava ao terrao e saiu. Carin titubeou e depois o seguiu . s vezes penso nela dessa maneira. Como minha Amalia.
Sua Amy.  evidente que acreditas que diriges tudo  sorriu com certa tenso . J o mencionaste, mas eu no pus um nome brasileiro a minha filha.
No  brasileiro  a olhou uns segundos e depois observou o rancho .  italiano. E voc o ps.
Batizei a minha filha de Amy. 
-Nossa filha. E foi uma escolha fortuita, porque minha me se chamava Amalia.
Era o ltimo que esperava que dissesse. Observou-o por um momento. Depois se sentou em uma das cadeiras de balano brancas que havia no terrao.
Nunca mencionaste a sua me  manifestou devagar.
E voc nunca mencionaste a seu pai  se apoiou na parede e pigarreou . Minha me era bailarina.
Na Itlia?
No, seus pais vieram para c antes de que ela nascesse. Era brasileira. Tinha sonhos de danar sobre um palco, mas... encolheu-se de ombros . No funcionou. De modo que danou em clubes, no Rio de Janeiro  franziu o cenho e colocou as mos nos bolsos. foi l que conheceu meu pai.
Como era ele?
Um filho da puta arrogante e egosta  fez uma careta . Assim que soube que minha me estava grvida, abandonou-a.
Oh.
Sim, Oh  tirou as mos dos bolsos e cruzou os braos . Ela tratou de entrar em contato com ele... amava-o. Mas ele no queria saber nada dela ou do menino que esperava.
Sua me te criou sozinha?
Sim. E durante os poucos anos que viveu, no parou de me dizer o muito que amava ao homem que tinha sido meu pai, at que o odiei tanto como ela o amava, porque, o que se podia amar desse homem que nos tinha abandonado?  com o queixo indicou o territrio aberto . Tudo isto era dele.
Ento, ele mudou de idia? Deve t-lo feito, se te deixou isto...
No me deixou nada  emitiu uma risada amarga . Perdeu sua fortuna e morreu com os bolsos vazios e com o rancho em runas  se ergueu e a olhou com olhos cintilantes . Eu o comprei com meu suor, criei tudo o que v, converti seu fracasso em meu xito...
Rafe  se levantou e foi at ele. Estendeu a mo, titubeou, e a apoiou em seu brao . Rafe, sinto tanto...
No o sinta  se apartou. No admiro aos homens que gemem. S te contei esta histria porque s vezes, quando olho para Amalia, para Amy, penso no que poderia ter sido sua vida, no que poderia ter sido a tua...
No! Eu fui muito, muito mais afortunada que sua me. Tinha uma carreira. Amy e eu teramos estado bem.
No sem um pai para ela, e um marido para ti.
Quis replicar pela arrogncia desse comentrio. Mas se disse que devia recordar o muito que a vida o tinha ferido.
Poderia ter razo  murmurou. Tambm nisso fui muito mais afortunada que sua me. O homem que me deu a minha filha  um bom homem. Um homem decente. No me deu as costas. Casou-se comigo.
Fazes que soe como um sacrifcio, querida. 
Olhou-o nos olhos, temerosa de formular a pergunta.
No foi?
No. Me alegro de me ter casado contigo.
De verdade?  inquiriu com um sorriso.
 obvio. Era o correto.
O correto. Sentiu a implacvel ferroada das lgrimas. Estpida, repreendeu-se. s uma estpida, Carin.
Claudia sabe? Me refiro sobre seus pais.
Claudia? O que tem que ver com tudo isto?
Me diga se souber.
Sim  assentiu . O contei quando... quando lhe pedi que se casasse comigo. Considerei importante que conhecesse a verdade.
Ah. Era importante que sua noiva conhecesse a verdade. Mas no eu. Sua esposa.
Carin  estendeu a mo, mas ela a retirou.
E... e suponho que sabe que te casou comigo porque era o correto, no?
No sei aonde quer ir parar, querida.
Sabe?  respirou fundo . Queria te pedir que deixasse de me chamar disso.
Que deixasse de te chamar...
Querida  esboou o que esperava que fosse um sorriso .  to... afetado. Irrita-me.
Deveria ter me pedido isso antes  indicou ele com frieza. Teria me encantado te agradar.
Obrigado. E agora, por favor, responde a minha pergunta sobre Claudia. Explicou-lhe as circunstncias de nosso matrimnio?
No houve necessidade.
Mas sabe que nos casamos depois de que eu tivesse Amy.
Suponho. Qualquer um que saiba contar...
Sim, tens razo. Qualquer um que saiba contar  respirou fundo.  surpreendente que dissesse isso. Frank estava acostumado a dizer o mesmo.
Frank  repetiu Rafe com voz apagada. Olhou-a como se tivesse perdido a cabea.
Frank  corroborou com um sorriso. Te lembra dele, no  certo?
Sim  um msculo se contraiu na mandbula de Rafe. O recordo bem. O que tem que ver com isto?
Oh, nada. Acabo... acabo de recordar que em uma ocasio estvamos na cama, falando, j sabe, como falam as pessoas depois do sexo, e mencionei a algum que conhecia que de repente tinha decidido casar-se, e Frank contou nove meses com os dedos e... gritou quando as mos, de Rafe se cravaram em seus ombros. Ests me fazendo mal!
Como te atreve a me contar o que esse... esse homem e voc falavam na cama?  sacudiu-a. Acreditas que quero ouvi-lo? Careces de vergonha, ou de respeito?
No sei o que  o que te incomoda tanto. Frank  histria  fez uma pausa.  mais histria que sua doce noiva.
Claudia?
Claudia. Quem vem nos visitar, a tomar caf, telefona-te mil vezes em um dia. Com quem te encerra em seu escritrio, com quem...
Rafe soltou umas palavras em portugus, levantou as mos dos ombros de Carin e se afastou.
No entendo o que est passando. Claudia j no figura em minha vida.
Tampouco Frank.
Pode ser que no esteja em sua vida  a olhou com frieza, mas seu nome sai de seus lbios.
 natural. Foi... foi muito importante para mim. Por exemplo, quando falas do muito que voc gosta de futebol e do muito que tenho que aprender a conhec-lo, eu penso em... penso em Frank. Quero dizer, ele gostava de futebol...
Frank no teria sabido reconhecer uma bola de futebol de uma de tnis, e jamais pensava nele, como nunca tinham estado na cama falando de algo. Estava apaixonada por seu marido e Rafe estava apaixonado por um antiquado cdigo de honra, e provavelmente da mulher com a qual ainda lamentava no ter-se casado.
Acredito que te lamentas ter casado comigo e no com seu antigo amante.
Que pergunta. Recorda que no me deu muitas alternativas, Rafe.
Fiz o correto...
Se disser isso uma vez mais  cortou com voz tremente, vou a... vou atirar-te algo.
Possivelmente  o rosto dele se escureceu, possivelmente hoje falamos mais do que deveramos.
Possivelmente deveramos hav-lo feito antes.
Carin, sei que isto no foi fcil para ti. Refiro-me  mudana em sua vida...deteve-se e a olhou,  espera de que ela manifestasse que se equivocava, mas no o fez.
Tens razo. No o foi. Viver aqui, no meio de parte nenhuma, longe de minha casa, de meus amigos... conteve um soluo, desejando sentir falta de sua casa, seus amigos, desejando no ter chegado a amar esse lugar nem a esse homem . Mas voc nunca se deteve a pensar nisso.
No tive escolha!
No grite comigo, maldita seja!
No grito  bramou. Falo, e te recordo que foi voc quem nos trouxe at este ponto. Esse... esse adorado amante teu te abandonou.
E?
Ficou to angustiada que foi  cama comigo.
No!
Ah. Perdoa por interpretar mal os detalhes. Possivelmente queira me refrescar a memria, querida. Conhecemo-nos. Voc no tinha nada na mente exceto a festa e se divertir todo o possvel, de modo que foi  cama com o primeiro homem com o qual tropeou.
Isso no  verdade!
No? Bom, ento provemos com outra coisa. Conhecemo-nos. Estavas bbada. E devido a isso ir  cama com um desconhecido parecia...
Esbofeteou-o. Ele lhe agarrou a mo, dobrou-lhe o brao  costas e a colou a seu corpo.
Era infeliz  a  Carin tremeu a voz; olhou-o atravs das lgrimas, desafiante. O sabes.
O bastante infeliz para ir  cama com o primeiro homem que lhe pedisse isso?
No! No foi assim. Tambm o sabes. O que passou entre ns, entre voc e eu, foi diferente.
De verdade?
Sim. Foi.
Olhou-a por um longo momento, esperando que dissesse mais, que lhe contasse que ir  cama com ele tinha sido diferente porque... porque tinha sido diferente.
Sentiu um n no estmago.
Por que tinha sido diferente? Ia falar-lhe de amor? Ia dizer-lhe que o amava, ou que ele a amava? No. No existia nenhuma emoo como o amor. E se lhe contava que o acontecido entre ambos era amor, diria-lhe... diria-lhe...
No que foi diferente?  insistiu Rafe, e odiou a frieza de sua voz, mas de repente soube que a resposta de Carin seria a mais importante em sua vida. Me diga, no que foi diferente fazer amor comigo?
Ela se soltou do aperto de Rafe. Ergueu-se com os sonhos destroados a seus ps.
Foi diferente  afirmou, porque o nico que restava era o orgulho, e a mentira que lhe permitiria mant-lo , porque me deixou grvida.
 


Captulo 11

Uma plida luz de sol, muito fraca para dar vida s folhas outonais, filtrava-se atravs das rvores do Central Park e mal penetrava pelas janelas da habitao de hspedes no apartamento de cobertura de Amanda na cidade de Nova Iorque.
O quarto, geralmente brilhante e alegre, parecia cheio de uma atmosfera sombria.
Amanda, que acabava de chegar, permaneceu um momento na soleira, observando Carin. Sua irm se encontrava sentada em uma poltrona de veludo azul com Amy nos braos. Tentava aliment-la com pouco xito.
Levou-se uma mo a seu prprio ventre inchado. Depois sorriu, entrou na habitao e acendeu um abajur.
Est to escuro como em uma masmorra  comentou de bom humor. Aproximou-se da janela, afastou as cortinas de veludo azul e acendeu outro abajur. Olhou a Carin, mas esta centrava toda sua ateno na pequena. A menina mordiscava inquieta o seio de Carin e emitia gritinhos irritados. Sua irm tinha todo o aspecto de acreditar que tinha falhado como me . Carin?
Hmmm?
Querida, por que no prova com uma mamadeira?
J tomou uma esta manh.
Bom, mas se tiver alguns problemas...
No tenho problemas. S passo por uma fase em que as coisas requerem mais tempo.  perfeitamente normal.
Tambm  normal complementar o peito de Amy com uma mamadeira, ou inclusive passar por completo a estas, se for necessrio. O livro diz...
Sei o que diz  acomodou o beb em seus braos .Eu o comprei, no se esquea.
Claro, mas... ao ver que sua irm a olhava com os olhos entreabertos, disse-se que o melhor era ser diplomtica . Quero dizer, sei que sabe o que livro diz, mas que  possvel que te saltasse algumas partes, ou que o interpretastes mal...
No acredito  olhou com olhos cintilantes a sua irm . Ls um livro sobre bebs, o teu ainda no nasceu e, zs, j s uma perita?
Zs, sou sua irm  indicou com pacincia. Te amo e amo a minha sobrinha.
E?
E acredito que deveria pensar em alimentar a Amy com mamadeiras. E que deveria deixar de me olhar como se quissesse me assassinar. J ests bastante estressada...
No o estou.
... bastante estressada sem que te irrite comigo.
Acaso estou irritada?
No  reps Amanda com contundncia, pareces idiota  s favas com a pacincia e a diplomacia. Elevou os olhos ao teto em um rogo silencioso para manter a serenidade. Querida, sinto muito. No s idiota. Eu sou por te agoniar.
No, no o s negou Carin com voz trmula. Tens razo. Queres pegar o beb, quer?
Amanda cruzou a estadia e tomou Amy nos braos.
Esta  minha garota  elogiou, mas a pequena s estava interessada em comer . Oh, querida, a tia Ammy no pode te ajudar...
A tia Ammy?  Carin sorriu.
Bom, no vejo que um beb possa dizer tia Amanda ...   bom ver-te sorrir, irm.
Sim  Carin se abotoou a blusa e ficou de p . Muito bem  disse com energia, vamos procurar a cozinha neste apartamento de cobertura e prepararei uma mamadeira para Amy.
Acreditaria-te que este lugar  menor que o palcio de Nick?  sorriu Amanda e lhe passou o beb para ir preparar-lhe a comida.
Perdo. Senhora Carin?  a bab de Amy apareceu depois de que a pequena havia terminado a mamadeira. Se lhe parecer bem, ia levar a menina para cima.
Carin assentiu. A pequena havia adormecida com o bico da mamadeira na boca. Beijou-lhe a cabecinha e com cuidado a entregou.
Esteve um pouco inquieta;  possvel que desperte.
Sim, Senhora.
Nesse caso...
Nesse caso  indicou a bab com educao , chamarei-a imediatamente.
Obrigado, Teresa  Carin suspirou.
Amanda comeou a preparar caf. Carin tirou o leite da geladeira e o acar do armrio. Minutos mais tarde, as irms se sentavam uma frente  outra.
Bom caf.
 meu nico talento culinrio  Amanda sorriu. Hmmm  bebeu um pouco mais.. Recordo aquelas bolachas que estava acostumada a assar quando ramos pequenas.
E eu recordo que estava acostumado a falar de tudo antes de fazer o que te inquietava. Parece que algumas coisas nunca mudam.
Carin se ruborizou, deixou a taa e juntou as mos sobre a mesa.
No me inquieta nada.
Deixou a seu marido.
Deixei a um homem com o qual nunca devia ter me casado.
Sim?
Sim.
Amanda se reclinou e cruzou os braos.
Se no devia ter te casado com ele...
No.
Ento, por que o fez?
Carin riu. Levantou-se para servir-se de mais caf. Sua irm moveu a cabea com resignao.
Eu no posso. Muita cafena para o prncipe.
Pode ser que leves a dentro uma princesa  comentou, sabendo que sua irm tinha optado por no conhecer o sexo do beb com antecipao.
 um prncipe. S um menino atuaria como se desse pontaps a uma bola de futebol dentro de mim... Aonde parei?
Carin se sentou na cadeira e sorriu a sua irm.
No sei.
Dizia que no me d a impresso de ser uma mulher que se casaria com um homem com o qual no queria casar-se.
Bom, pois o fiz. Mas ao final abri os olhos e me dei conta de que no ia deixar que arruinasse o resto de mi... o resto de mi...
Ests chorando?
No  as lgrimas caam por seu rosto . Por que eu ia chorar?  disse, afundando o rosto nas mos.
Carrie  Amanda foi a seu lado e a abraou . Me diga o que aconteceu, por favor. Quando depois do casamento compreendeu que tinha cometido um erro?
Soube assim que aceitei me casar com ele.
Mas enquanto vivia no rancho devo ter falado contigo uma dzia de vezes. Ao princpio soava desinteressada. Supus que era devido ao pos-parto  aproximou uma cadeira e se sentou. Pensei em te fazer uma visita surpresa, mas depois de um ms...
Seis semanas  tirou uns lenos de papel do bolso. Seis semanas e uma noite... ruborizou-se. Amanda a olhou e tambm se ruborizou.
De acordo  se esclareceu garganta, depois de seis semanas e uma noite, soava... sei que me dir que estou louca, mas soava como se nunca tivesse sido mais feliz.
Sou uma boa atriz.
s uma atriz espantosa, como eu.
De acordo. Era feliz. Mais ou menos.
E?
E depois no fui. E deixei a Rafe. 
Amanda tomou sua mo.
Isso  tudo? Foi feliz, depois deixou de s-lo, fez as malas e foi?
Sim  respondeu Carin, secando o rosto . Ele no me ama  soluou.
Bom  comentou Amanda com cautela , e te amava quando te pediu que te casasse com ele?
No me pediu <<isso, chantageou-me. Do contrrio, jamais teria aceito.
 isso.
 isso o que?
 isso, eu tinha razo. Disse a Nick que algo no funcionava. Quero dizer, mame fez que soasse como uma grande aventura romntica. O intrpido brasileiro e a formosa americana se conhecem em Espada, passam uma noite de paixo, continuam sua aventura em Nova Iorque...
No o fizemos. A noite de paixo em Espada foi tudo. Rafe inventou o resto para fazer que para mame resultasse mais fcil.
Imaginei que se tratasse de algo estranho como isso, que possivelmente ele tinha inventado isso para aplacar a sensibilidade maternal de mame. Voc e eu falamos por telefone, comemos juntas, e nem uma vez mencionou que via algum, muito menos a Raphael Alvares.
Ameaou levar Amy se no me casasse com ele.
O que? Como teria podido fazer isso?
Tinha papis. Documentos legais. Disse que tinha contatos...
Que rato.
Assim no tive escolha. E nas seguintes seis semanas, vivemos... vivemos em uma espcie de trgua armada. Habitaes separadas, vidas separadas. E ento... e ento aconteceu algo, e tudo mudou; comecei a ver que no era o homem frio e insensvel que tinha acreditado, e... e me apaixonei por ele. Quero dizer que pensei que havia me apaixonado por ele, porque no foi assim. Por que uma mulher ia apaixonar-se por um homem que no a ama?
No sei  murmurou Amanda. Tenta me explicar isso.
Sexo  respondeu com voz tremente . Foi somente sexo, isso  tudo.
Se duas pessoas forem realmente afortunadas, o sexo pode ser uma maravilhosa afirmao do amor.
Bom, pois no foi. Foi simplesmente... mordeu-se o lbio. De acordo  sussurrou. Me apaixonei por ele. Jamais acreditei que poderia amar a um homem como amei a Rafe. Mas ele no me amava. Casou-se comigo por causa da Amy. S por causa de Amy.
Voc se casou pelo mesmo motivo.
Carin esmurrou a mesa com a mo e ficou de p de um salto.
No estavas escutando? Casei-me com ele porque no tive outra escolha. E no o amo, j no. Odeio a Rafe. Desprezo-o. Sempre o desprezarei!
Espera  pediu ao v-la sair da habitao. Carrie...
Deixe-a ir  comentou Nick. Precisa estar sozinha durante um momento  Amanda se voltou e viu seu marido na porta que conduzia a sala de jantar .  uma confuso clssica, verdade?
Sim  concordou, e se lanou em seus braos, beijou-o e se perguntou por que dava a impresso de que nenhuma das irms Brewster podia conhecer um homem, apaixonar-se e viver feliz para sempre sem ter que passar a tortura do inferno.
Carin estava sentada em uma poltrona de veludo azul, com as pernas recolhidas e os braos ao redor dos joelhos, olhando por uma janela.
A noite tinha capturado  cidade. Tambm em casa reinaria a noite, mas ali seria diferente. Em Rio do Ouro no havia luzes nem rudo de trsito. O cu estaria negro e cheio de estrelas.
Em casa? No que pensava? J estava em casa. Encontrava-se em Nova Iorque. Jogou a cabea para trs. O problema radicava em que se achava cansada, emocional e fisicamente. At Rafe tinha compreendido ao final que seu lugar estava ali. Do contrrio, por que a teria deixado partir?
Depois da briga, no tinha dedicado nem um minuto a considerar se o permitiria. Quo nico tinha sabido era que o ia abandonar e que no poderia det-la. O que tinha sentido por Rafe, todo o amor, transformou-se em um dio to amargo que tinha tremido de fria enquanto guardava suas coisas e as de Amy.
Quase tinha acabado quando ouviu a portada. O corao lhe acelerou ao escutar Rafe subir as escadas. Abriu a porta do dormitrio e encheu a soleira com seu tamanho e sua fria.
O que achas que ests fazendo?  exigiu.
O que parece a ti?  embora tinha o corao descontrolado, falou com calma . Estou te deixando.
No o far  fechou a porta com o p.
Sim  se voltou e o olhou; em seu rosto viu fria . Ser melhor que no tente me deter.
Ele avanou para ela, cada passo que dava era uma ameaa. Carin desejou fugir, mas se obrigou a agentar; passou a seu lado e desceu de um golpe a parte superior da mala.
s minha mulher.
No por muito tempo  afirmou, indo at o armrio . Assim que estiver em casa...
Est em casa.
Assim que estiver em Nova Iorque, vou iniciar os trmites do divrcio.
No o permitirei.
Carin observou e riu.
No o permitir? No necessito sua permisso para solicitar o divrcio.
Necessitar-a para obt-lo, e no lhe darei isso.
J veremos.
Alm disso, esta discusso no tem sentido. No penso permitir que deixas esta casa.
No?  Carin se voltou para ele com uma ira que quase era evidente . O que far, Rafe? Me prender no teu quarto? Me prender  parede? Deixo-te. Quanto mais cedo o endenter, melhor.
Ele cruzou os braos e a olhou com olhos to frios que bem poderiam ter sido de gelo.
Muito bem. V. De todos os modos, no te quero.
No  corroborou ela. Nunca o tens feito.
No me diga o que desejei, Carin  indicou com os olhos entreabertos.
S te estou dizendo a verdade, mas tens razo, nada disso importa agora. Vou, e levo o meu beb comigo.
No o far! Amalia  minha.
Chama-se Amy, e sou eu quem a trouxe ao mundo. Parte comigo  lhe deu as costas, agarrou um punhado de coisas da cmoda, abriu a mala e as jogou no interior . Sou cidad dos Estados Unidos da Amrica. E Amy tambm o .
Amalia tambm  cidad brasileira.
No penso discutir isto. Amy se vai comigo. Se tenta impedi-lo, chamarei a minha embaixada.
Chama a quem quiser. Estamos no Brasil, e s minha esposa.
Estamos no sculo vinte e um, e se acreditas que vou deixar a minha filha com um homem que carece de corao, ests louco.
Tenho corao.
No tem um que funcione  afirmou com frieza enquanto fechava as duas malas . Te afaste de meu caminho, por favor. Teresa est preparando Amy e o avio no demorar para chegar.
Que avio?
Chamei Nick. Seu amigo, Nicholas Al Rashid  esboou um sorriso tenso . Ou possivelmente deveria dizer a meu cunhado. No sei por que demorei tanto tempo em me dar conta de que provavelmente ele tenha melhores contatos que voc.
Envolveste a algum de fora no nosso assunto?
No  de fora. Acabo de lhe dizer,  famlia. Comentei com Nick que queria ir a casa e me disse que me enviaria seu avio. Se no subir nele, com Amy, saber que voc me impediu disso fisicamente.
No acrescentou que Nick tinha afirmado que parecia ter perdido a cabea. Que lhe enviaria o avio mas que esperava que soubesse o que fazia.
 isso o que de verdade quer?  perguntou Rafe com desgosto mal dissimulado . Converter isto em uma batalha? Em um escndalo que envolva a todo mundo? Em uma guerra em que no haver vencedores?
Farei o que for necessrio para afastar a minha filha de ti  caminhou para ele com a cabea erguida.Voc gosta de soltar discursos sobre o que  correto, sobre as obrigaes e as responsabilidades. Mas jamais falas das coisas que realmente importam, as coisas que quero que minha filha entenda. Coisas como o amor.
No existe  afirmou com uma careta.
No  concordou com lgrimas nos olhos . Em ti no. Por isso te deixo, e levo a minha filha comigo.
Observaram-se em silncio. Depois ela deu meia volta, cruzou os braos e olhou pela janela.
Agradeceria-te  disse como se falasse com um desconhecido, que me permitisse levar a bab de Amy.
Rafe no respondeu. Carin se voltou e durante um momento o que viu em seus olhos esteve a ponto de impulsion-la a correr para ele, mas desapareceu imediatamente, e soube que tinha visto o que ela desejava ver, no a realidade.
Passarei tempo com minha filha sempre que o desejar.
J repassaremos os detalhes  soltou o ar contido. Ia deixar-la partir.
Sempre que o desejar  repetiu ele. Voc o entende, Carin? Se tentar me manter afastado dela...
No te isolarei da vida de Amy  murmurou, no por suas ameaas, mas sim porque tem razo em uma coisa. Um beb deveria ter a seus dois pais. E sei que a sua prpria maneira, ama a nossa filha respirou fundo . Te enviarei mei endereo e nmero de telefone assim que me assente. Por agora estarei com Amanda e Nick. Ligue sempre que quiser ver nossa pequena e o arrumarei.
Arrumar?
Sim. Para que ns no tenhamos que nos ver. No quero voltar a ver-te jamais, Rafe  havia dito com voz quebrada. Nenhuma vez, entende?
Ele tinha guardado silncio; unicamente a tinha olhado como se nunca antes a tivesse visto. Carin lhe tinha dado as costas, j que no queria que visse as lgrimas que corriam por seu rosto.
Carin?  sussurrou. Responde uma pergunta. Este... este amor do que falas tanto, imaginou alguma vez que poderia senti-lo por mim?
Ela no tinha podido responder, no sem derrubar-se. Passado um momento, ouviu que Rafe abria a porta e saa ao corredor e para fora de sua vida.
Enquanto o recordava, levantou-se da poltrona de veludo, foi  janela e apoiou a testa contra o vidro.
Oh, Rafe  murmurou. Rafe, no o v? Sempre te amarei. Sempre, enquanto eu viver.
Comeou a chorar. Passado um momento, quando j no restavam lgrimas, deitou-se na cama e se aconchegou. Adormeceu por esgotamento; e despertou porque se deu conta de que queria pedir um favor a Nick.
Uma coisa que Rafe nunca teria que saber. Uma coisa que no devia a ele, a no ser ao menino que uma vez tinha sido...
Ao homem que tinha perdido mas que sempre amaria.
 


Captulo 12

Nicholas Al Rashid, que ainda ostentava os ttulos honorficos de Leo do Deserto e Senhor do Reino, apesar de que em sua terra natal j no havia um trono imperial, olhou a seu convidado sentado ao outro lado da mesa.
Rafe tinha chegado ao Aeroporto Kennedy fazia uma hora. Nick o tinha ido recolher e levado ali, a seu clube. Se em todo esse tempo tinham trocado uma dzia de palavras, era muito. E dessas, no mnimo dez fora Nick quem as tinha pronunciado. Rafe unicamente parecia capaz de dizer sim e no.
Nesse momento decidiu que j era hora de ir em socorro do garom que lhes oferecia os pratos do dia.
Lombo para mim. Rafe, o que voc gostaria? O lombo, tambm  se apressou a dizer . Os dois ao ponto, acompanhados de saladas verdes, batatas assadas... Parece-te bem, Rafe?
O outro grunhiu. Nick tomou como um sim, assentiu em direo ao garom, acrescentou que agradeceriam dois usques, sem gelo e com um pouco de gua...
Sem gua  indicou Rafe.
As bebida chegaram em um tempo recorde. Nick quase sorriu. O garom parecia no querer correr risco algum.
Pela amizade  brindou Nick.
Rafe assentiu, bebeu quase todo o usque, olhou ao redor em busca do garom e se assinalou a taa.
Nick no gostou disso. Rafe ia beber durante o almoo e a manter um silncio ptreo, quando a misso de Nick era de buscar respostas. Isso era o que lhe tinha pedido sua esposa. De fato, era o que tambm ele queria fazer.
E bem  comeou com entusiasmo, como foi seu vo?
Rafe o olhou como se tivesse perdido a cabea.
Longo  grunhiu. O tempo limpo, sem incidentes, a vinte e oito mil ps todo o trajeto. Quer saber algo mais?
Nick suspirou, negou com a cabea e bebeu um gole. Ao menos havia falado algo pensou. Com um suspiro, refletiu que essa era uma das principais diferenas entre os homens e as mulheres.
Um homem com um problema importante o guardaria em seu interior. Uma mulher falaria e falaria. E depois, para estar segura, falaria um pouco mais.
Era o que tinham estado fazendo Carin e Amanda. Falar sem parar. Na sute de hspedes. Na cozinha. Na sala. No terrao se o dia no era muito fresco, e depois, para remat-lo, de noite na biblioteca. Sua mulher e sua cunhada no deixavam de falar, a menos que ele entrasse na habitao. Ento fechavam a boca e o olhavam at que conseguiam que sorrisse nervoso, murmurar umas desculpas e retrocedesse pela porta.
Terminou a taa, comprovou a de Rafe e indicou ao garom que lhes levasse outras duas.
Olhou a Rafe, que tinha afastado a salada em favor da taa. Imitou-o, elevou a sua e sorriu a seu velho amigo. Rafe no lhe devolveu o sorriso, mas levantou a taa e a fez se chocar com a sua.
Os dois deram uns bons goles. Nick respirou fundo e se lanou a quebrar o silncio.
Muito bem, tomei uma deciso  Rafe o olhou . Pode te embebedar, se o desejar. Mas no pode matar ao garom. No acredito que minha imunidade diplomtica nos proteja disso.
No estou de bom humor  o olhou carrancudo.
Menos mal que me diz isso, porque acreditava que tnhamos vindo para passar um par de horas de risada.
Rafe franziu ainda mais o cenho. Depois seus lbios mostraram o que poderia ter sido um sorriso.
Sinto muito. Sei que no sou muito boa companhia.
Eh, amigo, por que teria que ser diferente? Ningum  boa companhia por estes dias. Amanda vai pela casa como se eu fosse o inimigo s porque uso calas. E Carin se comporta como se...demnios!Esquece-o. Deve ser pelo clima. Este outono mais cedo...
O que ias dizer de Carin?  inclinou-se sobre a mesa. Est doente?
No.
O beb? Est ... ?
No! Quero dizer, sim, Amy est bem. As duas se encontram bem. Simplesmente... no queria mencionar Carin.
 minha esposa  se jogou para atrs.  impossvel no mencion-la.
Bom, eu no queria...
Se estivesse doente, quereria sab-lo  recolheu a taa, bebeu outro gole, deixou-a sobre a mesa e olhou a Nick . Embora j no vivssemos juntos, quereria saber... calou.
Rafe?  mas nesse momento, quando seu amigo elevou a vista, Nick quis gemer. O cenho irado, o olhar cintilante, tinham desaparecido. O que via gravado no rosto de seu amigo era dor . Oh  murmurou. Procurou o garom com o olhar e fez um gesto no ar . Vamos sair daqui  mas Rafe se tinha adiantado. J tinha atirado uma nota sobre a mesa e empurrado a cadeira para encaminhar-se para a porta.
No sei por que me deixou.
Rafe e Nick se achavam sentados em um banco no Central Park, com somente um par de pombas por companhia. Era um dia frio e ventoso. Nick estava se congelando, mas Rafe falava, por isso Nick sups que nem sequer uma pneumonia seria um preo muito alto para pagar por isso.
Estamos nos dando bastante bem  continuou. Ao princpio, possivelmente no, mas era de se esperar.
Bom, claro. Quero dizer, s se conheciam fazia uns meses...
Conhecamo-nos de uma nica noite  Rafe pigarreou . A histria de que tnhamos estado juntos em Nova Iorque era mentira.
Ah  interessante, pensou. Amanda saberia?  Por que? Para que Marta no se sentisse muito irritada com a fuga?
No foi uma fuga  reconheceu. Obriguei Carin a casar-se.
Obrigou-a?  a Nick parecia complicado que um homem pudesse obrigar s irms Brewster a fazer algo que no quissessem . Como?
Ameacei-a. Disse-lhe que tiraria a nossa filha... No me olhe assim, Nicholas! Fiz o que acreditei correto.
Bom, sim. Reconhecer Amy como legtima estava bem, mas se Carin no queria casar-se contigo...
Funcionou  Rafe ficou de p. Nick o imitou e comearam a caminhar para a rua . Com o tempo, Carin chegou a ver as coisas da minha maneira.
Como o conseguiu?  Nick sorriu . Eu adoro a minha mulher, mas conseguir que veja as coisas da minha maneira nem sempre  fcil.
Rafe pensou na noite depois do jantar, em que tinha dormido com sua mulher nos braos pela primeira vez, e em como tinham feito amor no dia seguinte.
Foi algo natural - reps. E depois disso... depois fui feliz. Pensei que Carin tambm o era  suavizou a voz . Parecia feliz, juro-o. Ramos. Sentvamo-nos ante a lareira pelas noites. Dvamos passeios a cavalo, e vamos crescer a nossa pequena...
D a impresso de que as coisas iam bem  Nick assentiu.
Sim. Eu pensava isso. E ento... suspirou e colocou as mos nos bolsos . E ento tivemos uma briga.
Rafe, s pessoas isso acontece. At Amanda e eu tivemos um par de discusses. No ms passado tentava me convencer de que deveramos pintar a habitao da menina de uma cor pastel que...
Brigamos, Nick  repetiu em voz baixa . Uma briga forte, e quando terminou, soube a verdade.
Que verdade?
Minha mulher ainda segue apaixonada por homem que a deixou plantada.
Frank?  Nick deixou de caminhar e soltou uma risada . Impossvel.
 verdade. Ama-o.
Rafe, no o ama. A mim tambm me ocorreu pens-lo, por isso o perguntei a Amanda  moveu a cabea com nfase . Carin nem pensa em Frank.
Sim  se voltou para Nick . Ela mesma me disse isso.
Rafe, amigo  suspirou e apoiou as mos nos ombros do outro ,  uma lio dura, mas se houver algo que me ensinou a vida de casado,  que o que diz uma mulher nem sempre  o que ela pensa.
Est chamando minha mulher de mentirosa?  o olhar de Rafe se endureceu.
Estou-te chamando de ingnuo se acreditas que as mulheres no nos confundiro se a ocasio o requer.
 possvel. Mas isto foi diferente. Vi o que jamais esperei ver, que minha esposa... respirou fundo . No tem sentido falar disso. Aceita minha palavra, ela o ama.
De modo que brigaram por causa de Frank?
No.
Bom, por que, ento?
Por nada. Por tudo  titubeou. Foi confuso. Ela ainda ama a esse homem, mas depois, quando recordei o que tinha passado... Acredito que talvez Carin queria que lhe dissesse que a amava.
Que voc ... ?  olhou a seu velho amigo. Me ajude a entender, quer? Deixou-te porque no lhe disse que a amava?
Correto  colocou as mos nos bolsos e recomeou a caminhada . Te disse que era confuso.
Na realidade, no. Me parece bastante simples. Por que no o disse?
Porque no a amo!  deteve-se outra vez e se girou para Nick . Carin  uma mulher maravilhosa.  formosa e brilhante. Fez-me mais feliz do que pensei que podia ser um homem. Despertar pela manh com ela em meus braos. Dormir com ela aconchegada a meu lado. S estar com ela... tragou saliva . Mas, amor? Amor  uma palavra tola, empregada, pelaa pessoas que acreditam nos contos de fadas. Engana a aqueles que fingem senti-lo. Eu sei, Nick, e mesmo assim, achas que teria que haver mentido a minha mulher? Que teria que haver dito Te amo, querida para ret-la?
Vais ter que me ajudar com isto, Rafe  disse depois de observ-lo uns segundos . Acreditava que acabava de me dizer que Carin ainda estava apaixonada pelo Frank.
E o que tem isso que ver?
Bom, se o amar, para que quereria que voc lhe dissesse que a amas?
No sei.
E por que te irrita que esteja apaixonada por outro homem se para ti o amor no significa nada?
Significa algo para ela  endureceu a mandbula.
Nick assobiou em voz baixa.
 uma idia interessante. E faz que me pergunte...
O que?
Se lhe houvesse dito que a amava, s para faz-la feliz... elevou a mo antes de que Rafe pudesse falar . Me escute, sim? Se lhe houvesse dito que a amava, e se ela lhe houvesse isso dito tambm, o que voc teria dito? Que Carin no sabia do que falava?
Sim. Isso mesmo.
Ou possivelmente teria dito que mentia.
J lhe dise isso. Minha mulher no mente!
Tranqilo.
Me perdoe. Sinto muito. No sei o que acontece comigo. No sou capaz de pensar com raciocnio. Grito com minha governanta, com minha secretria... meus homens trabalham em excesso para me evitar.
E no sabe o que te passa?  Nick sorriu. Rafe, amigo, ests apaixonado.
No! J lhe disse que no acredito...
Tampouco muitos de ns, at que conhecemos a mulher adequada.
Olharam-se por um longo momento, e ao final Rafe emitiu um gemido agnico.
De acordo  reconheceu ,  verdade. No sei como aconteceu, mas amo Carin.  meu corao, minha alma e minha vida  agarrou o brao de Nick com desespero . Mas, o que importa?  lhe endureceu a voz . Ela no me ama. Ama a esse homem...
Esquece isso. J te disse que o que dizem nem sempre  o que pensam.
Ento... pigarreou . Ento, acreditas que h uma possibilidade? Posso ir a seu lado, tom-la nos meus braos e lhe dizer que fui um tolo...?  observou a Nick . O que passa? Por que me olha dessa maneira?
Rafe. Maldita seja, sinto muito...
Me diga o que saibes, Nicholas.
Acredito que  muito tarde para a reconciliao. Ver, Carin me pediu que lhe fizesse um favor. Que comprovasse uma coisa, suponho que o poderia chamar uma legalidade... respirou fundo. Suponho que escolheram juntos o nome da pequena, verdade?
Pelo amor do cu, o que tem que ver com isto o nome de Amy?
Bom, no  Amy. J no mais. Esse foi o favor que Carin queria; averiguar como podia mudar o nome do beb, legalmente.
Rafe se paralisou.
No pode tirar meu nome da minha filha. Est na certido de nascimento.  Amy Alvares...
O sobrenome segue. O que mudou  Amy. Sua pequena j no se chama Amy Brewster Alvares. Agora  Amalia... Rafe? Rafe, que diabos ests fazendo?
Mas este j tinha cruzado a Quinta Avenida para ir procurar a sua esposa e lhe dizer que a amava.
No foi to fcil.
Rafe caminhava pela sala do apartamento de cobertura dos Al Rashid,  espera para ver se sua esposa aceitava receb-lo.
Nick o tinha alcanado quando saiu correndo do Central Park e o tinha acompanhado at l em cima, para  informar a Carin de que seu marido a esperava; depois tinha tirado uma Amanda relutante do apartamento de cobertura para levar-la para dar um passeio.
Em seguida desce  tinha sussurrado a Rafe antes de fechar a porta.
O nico que restava a Rafe fazer era esperar e rezar.
No deixou de caminhar, depois se aproximou da parede de vidro que dava ao parque, contemplou o terrao....
Ol, Rafe.
Girou em redondo e sentiu que o corao lhe dava um tombo.
Sua mulher se encontrava na escada, com a mo no corrimo. Usava uns jeans e um pulver, o cabelo revolto e ia sem maquiagem no rosto. Em outras palavras, estava incrivelmente formosa... embora a expresso dos olhos era triste.
Deu um par de passos em direo a ela.
Ol, Carin.
Nick disse que queria ver-me.
Eu... Sim. Sim.
Carin desceu o resto dos degraus com os braos cruzados.
Compreendo que queira ver Am...  pequena, mas est dormindo. Se puder voltar amanh por volta das nove...
Claro que quero v-la. Mas vim para falar contigo.
Carin descruzou os braos e colocou as mos nos bolsos.
Expliquei-te as regras, Rafe. Tem que chamar antes...
Mudaste o nome da nossa filha.
Rafe observou o rosto de Carin. Suas bochechas estavam vermelhas e os lbios lhe tremiam, e foi nesse momento quando ele teve a certeza de que Carin o amava, somente a ele.
Nick  um idiota  espetou ela. Por que te contou isso?
Pensou que tinha algum significado, querida  sorriu ao caminhar para ela , que queria dizer que nunca mais me aceitaria em sua vida, e desejava me advertir de que no esperasse o contrrio.
Bom, pois tinha razo. No tenha esperanas, Rafe, no penso...
Por que o mudou?
Por que? Por... tradio. Por... respeito. Por... conteve o flego quando lhe acariciou a bochecha . Por favor, no faa isso.
O que? Isto? Te tocar?  colocou os dedos no cabelo dela e aproximou o rosto . Estava acostumada gostar de que te tocasse. Que te abraasse, meu amor. Recorda-o?
Recordo te dizer que no viesse aqui sem te anunciar antes  reps com voz trmula; tentou apartar-se, mas ele no o permitiu . E recordo te dizer que no empregasse palavras como essas quando no tinham nenhum significado para ti.
Que palavras?  sussurrou ao inclinar a cabea para beij-la.
J sabes. Querida. Meu amor. No significam nada.
Significam que  proprietria de meu corao. Carin sorriu . Mas voc nunca me disse isso. Jamais te ouvi me chamar querido ou meu amor.
E por que teria que faz-lo? No te amo...
Sim  cortou ele com gentileza. Me ama  respirou fundo. E eu te amo.
Diz-o porque... quer que volte, para que nossa filha cresa em seu lar.
Sim. Quero isso, e muito. Mas o que mais desejo, querida,  passar o resto de minha vida te demonstrando o amor que sinto por ti. Carin... se calou por uns momentos . Carin, jamais entendi o que era o amor. Pensei que era um sonho para os fracos, um jogo para aqueles que o jogavam. Mas agora o entendo. Acredito nele porque te amo com tudo o que sou, e se de verdade me deixar, estarei vazio por dentro, para sempre.
Rafe  soluou ela. Oh, Rafe, meu amor...
Ele a abraou e beijou a sua esposa uma e outra vez.
Vamos procurar Amy  murmurou.
Amalia  corrigiu Carin com um sorriso. Voltou a beij-la.
E depois, querida, iremos para casa.
Carin enterrou o rosto no pescoo de seu marido quando ele a tomou em seus braos. 
Sim, querido  murmurou. Vamos procurar a nossa filha, e depois, por favor, me leve para casa.
 


Eplogo

Em meados do outono, um domingo anormalmente quente, em Espada teve lugar outro casamento.
Carin e Rafe voltavam a casar-se. Tinha sido desejo dele. Disse que queria compartilhar o jbilo que o consumia com a famlia e os amigos.
Ela estava radiante de branco. Rafe usava um smoking preto e uma camisa branca com peitilho, e todos os convidados suspiraram ao ver como ele sorriu  noiva quando esta chegou ao altar.
Quem entrega a esta mulher em matrimnio? perguntou o juiz de paz.
Eu  afirmou Jonas Baron, e beijou a bochecha de sua enteada.
Marta, que sustentava Amy nos braos e estava sentada na primeira fila de cadeiras, tomou a mo de seu marido quando este se situou a seu lado.
No est preciosa?  sussurrou.
Todas as minhas garotas so bonitas  disse, beijando a bochecha de sua mulher.
Amanda  comentou Marta com ternura , e agora Carin... olhou  esbelta dama de honra de cabelo castanho avermelhado que era sua terceira filha e suspirou . Tudo seria perfeito se Samantha conhecesse algum e se apaixonasse.
As mulheres no sero felizes at que no tenham caado a todos os homens do planeta.
Algo parecido.
Marta sorriu e com lgrimas nos olhos ficou de p junto com todos os assistentes, quando o Senhor Raphael Eduardo Alvares tomou  formosa Senhora Carin Alvares em seus braos e a beijou com todo o amor que tinha e que durante muitos anos tinha estado encerrado em seu corao.

Fim




